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1826–1864

II

Laurindo José da Silva Rabelo

Ao lindo sol da glória, que teus campos Liberal fertiliza, Minha primeira luz não deve os raios, Nem teus jardins me deram

Flores com que adornasse o pobre berço; Lá das campinas tuas não medimos Nem eu, nem sócios meus, brincando alegres Velocidade e forças

Na carreira e nas lutas esforçados: As mal pronunciadas Preces minhas sumir-se no infinito Não foram do teu céu, quando cansada

A Tarde no Ocidente despe a púrpura Que o Nascente lhe deu, chamando-a — Aurora; Nessa hora, em que a brisa da saudade Suspiro da saudosa Natureza,

Com brando movimento agita as folhas Extremas do arvoredo, os passarinhos Volvem aos ninhos apressados vôos, E dúbia luz, com trevas misturada,

Pouco a pouco se esvai entre as cinzentas Montanhas vaporosas; nessa hora, Em que todo o universo, extasiado Num culto involuntário,

Parece ver passar o Anjo do Tempo, Que vai, guarda da terra, a Deus dar conta Dos trabalhos diurnos; nessa hora, Em que a melancolia afaga os peitos,

Em que a alma se contrai ouvindo a queda Do pó que mede a vida, E, transido de mágoa, o campanário Deixa cair as lágrimas metálicas

No sepulcro do dia. Amei onde nasci. Essa esperança Tão doce e feiticeira Que na idade viril desponta n’alma;

Essa idéia de fogo, onde releva A mão da fantasia imagem de anjo Que nos seduz e arrasta, Tive-a no meu torrão. O mesmo astro

Que no berço me viu, viu meus amores. O ameno Mon-Serrate, a fresca Barra, O místico Bonfim não asilaram Meus primeiros segredos de ternura;

Essa história de enleios toda guardam Amigas margens do meu pátrio Rio, Que até no curso rápido desenha A rapidez das ditas,

Do gozo, do prazer que tive nela. O nascimento, a infância, Os primeiros amores, Não, não te devo a ti, terra querida;

Mas a dívida imensa Deste amor desvelado que me deste, Sem temor de baixeza, me consente Chamar-te — minha pátria.

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