Ao lindo sol da glória, que teus campos Liberal fertiliza, Minha primeira luz não deve os raios, Nem teus jardins me deram
Flores com que adornasse o pobre berço; Lá das campinas tuas não medimos Nem eu, nem sócios meus, brincando alegres Velocidade e forças
Na carreira e nas lutas esforçados: As mal pronunciadas Preces minhas sumir-se no infinito Não foram do teu céu, quando cansada
A Tarde no Ocidente despe a púrpura Que o Nascente lhe deu, chamando-a — Aurora; Nessa hora, em que a brisa da saudade Suspiro da saudosa Natureza,
Com brando movimento agita as folhas Extremas do arvoredo, os passarinhos Volvem aos ninhos apressados vôos, E dúbia luz, com trevas misturada,
Pouco a pouco se esvai entre as cinzentas Montanhas vaporosas; nessa hora, Em que todo o universo, extasiado Num culto involuntário,
Parece ver passar o Anjo do Tempo, Que vai, guarda da terra, a Deus dar conta Dos trabalhos diurnos; nessa hora, Em que a melancolia afaga os peitos,
Em que a alma se contrai ouvindo a queda Do pó que mede a vida, E, transido de mágoa, o campanário Deixa cair as lágrimas metálicas
No sepulcro do dia. Amei onde nasci. Essa esperança Tão doce e feiticeira Que na idade viril desponta n’alma;
Essa idéia de fogo, onde releva A mão da fantasia imagem de anjo Que nos seduz e arrasta, Tive-a no meu torrão. O mesmo astro
Que no berço me viu, viu meus amores. O ameno Mon-Serrate, a fresca Barra, O místico Bonfim não asilaram Meus primeiros segredos de ternura;
Essa história de enleios toda guardam Amigas margens do meu pátrio Rio, Que até no curso rápido desenha A rapidez das ditas,
Do gozo, do prazer que tive nela. O nascimento, a infância, Os primeiros amores, Não, não te devo a ti, terra querida;
Mas a dívida imensa Deste amor desvelado que me deste, Sem temor de baixeza, me consente Chamar-te — minha pátria.
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