Dizer não posso o que és, o que é teu canto, Que o diga o Sol da Pátria Nos céus aos astros, quando, derramando A luz que neles bebe,
Os astros vê nadando em novos lumes! Que o diga a Primavera Nos prados e nos montes, Nos jardins, nas searas
Descuidada deixando cair flores, E aparando teus versos no regaço. Que o diga em noite estiva, A Lua melancólica,
Pálida — imóvel — a chorar ternuras, Ouvindo-te saudosa — enamorada Uma canção de amores. Que o digam essas brisas tão suaves
Que ao viajor cansado, em nossos bosques, Refrigeram, deleitam, enfeitiçam, Trazendo-lhe o aroma que desprendem As flores bafejadas por teu estro.
Que o digam a escutar-te, quando altíssono Nos narras inspirado Dos livres os triunfos, glória, e brios, A liberdade rindo,
E o terror a tremer nas faces frias Dos pálidos tiranos. Que o diga amor, e escreva Nos troféus que levanta,
Quando, tangendo as cordas Da lira de diamantes, Rendidos corações arrastas presos Nos grilhões de teu canto até seu sólio.
Diga a mulher enfim, — não a que nutre Nos olhares ardentes de volúpia A chama impura das paixões nocivas; Divindade fatal, de cujos templos
A razão a fugir ao crime entrega As aras e o turíbulo; — mas a virgem, A virgem, que descer dos céus à terra Por escada de flores viu o homem
No lindo sonho do dormir primeiro: O anjo que no exílio acompanhava O primeiro proscrito, e no pão negro, Que lhe dera o pecado, transformou-lhe
C’um beijo em mel de rosa o fel das lágrimas: A estrela, que, depois de conduzir-nos Por mares de delícias, Onde afogados de prazer morremos,
A vida nos restaura, E de luz divinal num raio amigo Nos embebe no seio o amor paterno. Sim, que o diga a mulher, mas a perfeita,
A completa mulher por Deus formada, Norma daquele cofre que devera Arca de salvação, guardá-lo um dia, E cuja cópia transladaste em verso!
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