Um dia natalício em quantas faces Se pode desenhar! Que cenas de prazer e de pesares Nos pode retratar!
Anel d’oiro, ou de ferro, anel d’estala, Na cadeia da vida; Marco de légua pela morte ganha, E para nós perdida.
Origem de uma fonte que começa Onde outra terminou; Berço de um tempo, mas também sepulcro De um tempo que passou!
Porém por que razão sempre festivo Se mostra o rosto seu? — Porque o ano que nasce esquecer deixa O ano que morreu:
Porque enquanto na estrada da existência A humanidade avança, Deixa sempre olvidar os desenganos Com os olhos na esperança.
Mas o tempo, que corre desta sorte P’ra todos os humanos, Oh! Pedreira feliz! — mudou de aspecto No curso de teus anos.
O tempo, que se passa inertemente, Tem vida transitória; Mas o tempo contado por virtudes Tem sempre eterna glória.
Não serão pois cobertos os teus anos Do olvido pelo véu: Quando morram na mente dos ingratos, Com Deus serão no céu.
Não tens áureos brasões por hábil destra Com arte burilados; Não cinges toga ilustre, nem tens nome No rol dos purpurados;
Porém, sem as virtudes qu’em tu’alma Existem engastadas, São títulos, brasões, fama, riquezas, Misérias enfeitadas.
São flores sem aroma, e cujo viço Efêmero não dura; Fosfóricos fanais, que a sorte acende, E apaga a sepultura.
Que sempre encares com igual semblante O Céu — e o Céu propício Não deixe a menor nuvem de desgosto Turvar teu natalício —
Tais são os votos meus, nunca inspirados Por vil adulação; Quando minh’alma os escreveu, a pena Molhou no coração.
Tais são os votos meus na voz expressos, De frouxa poesia, Que verte a lira pouco acostumada Aos hinos d’alegria;
Filha de um estro fraco e perseguido Por fado sem piedade, Vagando peregrino em terra estranha Nos ermos da saudade.
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