Como a adorei, não exprime,
Não diz humana linguagem;
Ninguém traçar pode a imagem;
Daquele amor tão sublime!
A cruel, por este crime,
Eterno pranto me ordena.
E eu, vítima da pena
Da minha amorosa ofensa,
Sem arguir a sentença
Beijo a mão que me condena!
Sentindo a perseverança
Da paixão que me domina,
De achar ao mal medicina
Não alimento esperança,
Não sinto a menor mudança
Neste amor tão malfadado;
Se este amor exagerado
A mil desgraças me liga,
Esta constança me obriga
A ser sempre desgraçado!
Há um destino. — A razão
Da paixão na imensa vaga
De pronto seu facho apaga,
E nos deixa a escuridão!
Desse destino a impulsão
Eu sinto se me examino:
Sem luz, sem guia e sem tino,
Nada cogito, nem quero;
Não penso, não delibero,
Obedeço ao meu destino.
Quando em calma cogitava,
Calmo, estudando a verdade,
A razão e a liberdade
Sempre fortes, figurava,
Mas ai, triste! nem sonhava
Ver-me um dia neste estado!
Agora desenganado
Por tão acerba lição,
Mais que ao poder da razão,
Respeito o poder do Fado!