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1826–1864

Glosa

Laurindo José da Silva Rabelo

Como a adorei, não exprime, Não diz humana linguagem; Ninguém traçar pode a imagem; Daquele amor tão sublime!

A cruel, por este crime, Eterno pranto me ordena. E eu, vítima da pena Da minha amorosa ofensa,

Sem arguir a sentença Beijo a mão que me condena! Sentindo a perseverança Da paixão que me domina,

De achar ao mal medicina Não alimento esperança, Não sinto a menor mudança Neste amor tão malfadado;

Se este amor exagerado A mil desgraças me liga, Esta constança me obriga A ser sempre desgraçado!

Há um destino. — A razão Da paixão na imensa vaga De pronto seu facho apaga, E nos deixa a escuridão!

Desse destino a impulsão Eu sinto se me examino: Sem luz, sem guia e sem tino, Nada cogito, nem quero;

Não penso, não delibero, Obedeço ao meu destino. Quando em calma cogitava, Calmo, estudando a verdade,

A razão e a liberdade Sempre fortes, figurava, Mas ai, triste! nem sonhava Ver-me um dia neste estado!

Agora desenganado Por tão acerba lição, Mais que ao poder da razão, Respeito o poder do Fado!

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