Já luziu no firmamento
Do sol a luz radiante,
Já seu raio fulgurante
Deu ao mundo luzimento;
Com sublime encantamento
Já espargiu a alegria;
Porém, ó céu, quem diria
Que o sol havia expirar?!
Lá o vejo descambar,
Soa o bronze, expira o dia.
Vendo pois, da natureza
O quadro todo mudado,
Comparo-me ao seu estado,
Me punge mortal tristeza
Já não vendo esta beleza
Que o sol faz o mundo ter.
Vendo a noite já descer
Com suas cores de morte,
Lendo nela minha sorte,
Eu fico triste a gemer.
Assim entregue ao azar
Triste vítima do fado,
Vivo sempre contristado
E de contínuo a penar;
Debalde busco encontrar
Da felicidade o matiz
Tudo que me cerca diz:
“Vê lá das trevas no horror
A imagem triste da dor;
Eis qual vive o infeliz.”
Ouço a sentença da sorte,
Mais se magoa o meu peito,
E ainda à vida sujeito,
Lamento não ver a morte,
De dor em vivo transporte,
Só desejo não morrer;
Desejo então mais sofrer,
Porém, como sou cativo,
Nem posso morrer nem vivo.
Eis aqui o meu viver.