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1826–1864

DOUS IMPOSSÍVEIS

Laurindo José da Silva Rabelo

Jamais! quando a razão e o sentimento Disputam-se o domínio da vontade, Se uma nobre altivez nos alimenta Não se perde de todo a liberdade.

A luta é forte: o coração sucumbe Quase nas ânsias do lutar terrível; A paixão o devora quase inteiro, Devorá-lo de todo é impossível!

Jamais! a chama crepitante lastra, Em curso impetuoso se propaga, Lancem-lhe embora prantos sobre prantos, É inútil, que o fogo não se apaga.

Mas chega um ponto em que lhe acena o ímpeto Em que não queima já, mas martiriza, Em que tristeza branda e não loucura À razão se sujeita e harmoniza.

É nesse ponto de indizível tempo Onde, por misterioso encantamento, O sentir a razão vencer não pode, Nem a razão vencer ao sentimento.

No fundo de noss’alma um espetáculo Se levanta de triste majestade, Se de um lado a razão seu facho acende De outro os lírios seus planta a saudade.

Melancólica paz domina o sítio, Só da razão o facho bruxoleia Quando por entre os lírios da saudade Do zelo semimorto a serpe ondeia!

Dous limites então na atividade Conhece o ser pensante, o ser sensível: Um impossível — a razão escreve, Escreve o sentimento outro impossível!

Amei-te! os meus extremos compensaste Com tanta ingratidão, tanta dureza, Que assim como adorar-te foi loucura, Mais extremos te dar fora baixeza.

Minh’alma nos seus brios ofendida De pronto a seus extremos pôs remate, Que mesmo apaixonada uma alma nobre Desespera-se, morre, não se abate.

Pode queixar-se inteira a f’licidade De teu olhar de fogo inextinguível, Acabar minha crença, meu futuro, Aviltar-me! jamais! É impossível!

Mas a razão, que salva da baixeza O coração depois de idolatrar-te, Me anima a abandonar-te, a não querer-te, Mas a esquecer-te, não, sempre hei de amar-te!

Porém amar-te desse amor latente, Raio de luz celeste e sempre puro Que tem no seu passado o seu presente, E tem no seu presente o seu futuro.

Tão livre, tão despido de interesse, Que para nunca abandonar seu posto, Para nunca esquecer-te, nem precisa Beber, te vendo, vida no teu rosto.

Que, desprezando altivo quantas graças No teu semblante, no teu porte via, Adora respeitoso aquela imagem Que deles copiou na fantasia.

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