Mais nada resta a suspeitar!... Mais nada O véu da falsidade encobrir pode!... Do desengano ao lume, desesp’rada, Atenta tudo vê, tudo conhece
Minha alma acesa em raiva, acesa em zelos!... Que pretendias, pérfida?... Que ainda Perdurasse a ilusão com que risonha Entretinhas meus loucos pensamentos?
Que da paixão ao sopro envenenado O lume da razão, perdendo a chama, Jamais recuperasse?... Não! não pôde Em mim de amor a força ganhar tanto!...
Mas oh! por que me ufano se ainda escravo Geme o meu coração? Se inda deseja Ver da tigre o semblante, ouvir-lhe as vozes?... Tristes sortes dos míseros amantes,
De ingratos corações vítimas loucas! Conhecem o algoz! e o algoz só querem! Maldizem mão cruel, que os assassina, E só acham nos braços do verdugo,
Alívio para o mal, que os atormenta! Cegos, que pretendeis achar ventura Entregues à paixão, que me devora! Estultos! vede os males que me cercam!
Contemplai minhas ânsias! meus suspiros Penetrem vossos peitos desgraçados! Amei uma mulher, julguei que nela Tudo era belo, tudo amável, terno:
Minha alma embalsamada pelo aroma De meigas esperanças amorosas, Só delícias gozava, só prazeres Quando pensava nela, quando a via;
Meu peito era inocente, e a razão nova. Na mente virgem de amorosas cenas, Era a primeira trágica — Marfida! — Roubou-me com enganos a traidora
Meus primeiros suspiros, meus carinhos, Meus beijos, minhas queixas, meus desvelos! Se de ciúme ardente o peito amante, Irado, contra ela a voz erguia,
Um sorriso somente me bastava Para apagar a lava em que fervia Meu coração zeloso! Um olhar terno, Delirante de amor, aos pés da infida
Em despojo a seus olhos me arrastava! Num beijo desmaiava, embriagado Por um licor divino que sentia Difundir-se dos seus pelos meus lábios!
Quantas ditas gozei! quantos tormentos, Já me causava a Ingrata antes da infâmia!... Mas... tudo se passou!... Visões celestes, Vossa tirana angélica pintura
Em quadros infernais está mudada!... Leves pincéis de amor tendo quebrado, Molhou da ingratidão a negra brocha Nas tintas que as traições lhe ministraram,
E dentro da minha alta só vilezas, Falsidades venais, cenas infames Me desenha na mente desvairada! Oh! como! com que cor, com que prodígio
Vendo estou daqui mesmo dos seus crimes O retrato fiel, a forma viva! Crestados pela luz da fantasia Queimam-se os véus que envolvem o nefando
Leito onde fervem gozos impudicos! Onde a luxúria treme em corpos trêmulos, Exalando seu hálito empestado! Ao sumo em comoção chegaram ambos:
Correm os beijos mais que o pensamento: Juramentos de amor entrecortados. Ouvem as fúrias presidindo o ato! Os corpos mutuamente se comprimem...
E Deus em toda a parte!!!... e tudo vendo!!... Nem o respeito ao céu lhe veda o crime Que acesa a Salamandra em fogo impura, Tem o céu nos prazeres desonestos
E seu Deus no mortal com que os goza... E não brada vingança um tal delito?... Risonha a Natureza a contemplá-la Parece festejar seus desatinos!...
Bem; sucumba-se a sorte aos céus e ao fado; Fartem-se com os jorros do meu pranto; Contém-me as ânsias, contém-me os suspiros, Formem eles um cântico de glória
Que ao seio paternal do Nume afague!... Porém... que digo!... Lábios, que fizestes?... Que disse!... oh! justo Deus! perdoa a Bardo: Não guiou a razão falsários ditos:
Perdoa, justo céu! são tais palavras Centelhas do vulcão em que me abraso! Marfida escuta agora a voz do vate, Onde a paz já domina; atende um pouco
À voz do coração aniquilado. Que já livre das fúrias do ciúme, Inda ardente de amor, mas já sem lavas, Submergido nas trevas da tristeza,
É qual em fundo bosque, em noite escura, Esqueleto de choça incendiada, Sem chama, sem fumaça, em brasa viva! Arguições não são, meu bem, são rogos!
Rogos, que meigo, terno, lacrimoso, Suplicante, abatido, d’alma verto! Marfida! muda um pouco esses transportes! Dos lábios desse amante que idolatras,
Desapega teus lábios!... vem ao menos Encostá-los nos meus envenenados Para dar-lhes o seu contraveneno! Cede às aflitas preces da minha alma,
Que sedenta te roga algumas horas, Um minuto sequer de gozo antigo, Da celeste ilusão dos teus enganos!... Mas... sucumba a paixão; erga-se o homem!
Quebrem meus pés enfim as vis cadeias, Que a seus pés arrastei! Mísero louco!... Escárnio a meu rival, escárnio dela! A taça em que sorvi divino néctar
Caiu-me aos pés quebrada; os vis fragmentos Esmaguemos também! Nem mais teu rosto Venham mostrar-me espelhos da memória! Vai-te! Vai-te de mim... porém, não! fica,
Fica, que, se tu partes, vai contigo Todo o meu coração, vai-se minha alma!... Que ânsia tão aflita me sufoca! Talvez a morte seja... Vem; não tardes,
Imagem da extinção, imagem santa Do nada; ponte curta que nos leva Da ilusão à verdade! Mesmo quando, Castigo ou prêmio, nada depois dela
Exista para nós, o nada mesmo Realidade é! Mortais tormentos Suportará jamais quem não existe; A vida entre prazeres vale a vida;
Mais que a vida em desgraça vale a morte. Talvez, talvez, cruel, antes que um dia Sobre o sepulcro d’outro a luz derrame, Da vida o fio me rebente a morte!
Talvez amanhã mesmo sobre a campa, Que meu já frio corpo frio espera, Tu pises orgulhosa de meu fado! Vai; que lá mesmo te darão meus manes
Uma prova de mais dos meus tormentos! Gemidos que ouvirás na minha campa, Sairão de meu peito inanimado; Entre suspiros ouvirás teu nome
Por meus já mortos lábios repetido; Que amor, essencial parte do espírito, No espírito eterno, eterno viva.
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