De luto vestidos os campos estão, Envolve as cidades das trevas o véu, A lua não brilha, as outras estrelas Somente povoam a face do céu.
Ninguém se recreia no triste silêncio, Na paz, no sossego desta solidão; Só eu gosto dela, por ver no seu rosto Descrito o retrato do meu coração.
Contigo me alegro, contigo meu peito Combina contente, ó noite sombria!... Do dia não gosto; o sol me aborrece: Nas noites encontro melhor poesia!
Ó tu minha lira, me dize: não é Da noite no seio mais belo teu som?... Teus meigos suspiros, teus ais, teus gemidos Não tem outra vida, não tem outro tom?...
O mundo inquieto, no estrondo que faz, Sucumbe teus ecos, sufoca-os no ar: Em seu labirinto, confuso de dia, Por mais que lhe fales, não quer te escutar.
Mas quando nas horas remotas da noite Escuta acordado teu som sedutor, Ouvindo soluços, que dizem saudade, Que dizem queixumes, que dizem amor...
Qual peito sensível resiste ao poder, À doce magia que o vem penetrar?... E quando termina o toque divino, Não quer ansioso que torne a voltar?!...
Oh minha adorada! meu bem! minha lira! Passar não deixemos tão doces momentos!... Ah! leva em teus sons ao reino ditoso As tristes idéias de meus pensamentos!...
Com eles, meus versos, velozes voai! Aos astros dizei meu mal tão cruel; Dos astros parti à santa morada, Humildes beijai os pés de Isabel.
Mas louco! não vês que a lira tangida Por destra tão fraca não pode soar Vozes tão sonoras e tão duradouras Que possam da terra aos astros chegar?!...
Que as tristes endechas, que os cantos humildes De um vate mesquinho tal força não tem?... Que ao céu voam cantos dos bardos celestes, Que aos bardos da terra só terra convém?...
Porém, se não podem as vozes da lira A par de meus cantos à glória chegar, Tu, alma celeste, dos anjos encanto!... Bem podes na glória meu canto escutar!...
Escuta, portanto, meus hinos saudosos, Meus hinos sem flores, sem ostentação: Com eles recebe na santa morada Um culto sincero do meu coração!...
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