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1826–1864

CANTO I

Laurindo José da Silva Rabelo

Das soberbas muralhas, tetos d’ouro, Dos palácios zombando, sem sussurro Voa o anjo que volve o mundo ao nada! Com a destra fatal lançando em terra

Tronos, cetros, diademas e tiaras. Sopram seus lábios hórridos venenos, Que as flores murcham da infeliz campina Que o viu passar. A Nápoles seu vôo

Furioso endereça, as asas bate Sobre o trono, e de luto cobre o sólio, Na mísera cidade levantando Monumento credor de pranto eterno!

E lá jaz para sempre, lá repousa Uma fronte real que inda há bem pouco, Gingindo áureo diadema, prometera Idades d’ouro dos Bourbons ao povo.

Inesperado golpe, caso infausto, Quantos bens nos roubaste no futuro!... Oh! quantas esperanças destruíste... Quanto pranto trouxeste!... triste sorte

Dos míseros humanos!... Ilusores, Magníficos fantasmas da esperança... Vida, que és tu?!... Caminho breve sempre Do leito à sepultura! Flor que murcha

Quando mais odorosa nos parece. E, além das ilusões, quimeras fúteis De rápidos prazeres soçobrados Em oceanos de angústias, que nos deixas?...

O que resta de ti?... Só a virtude! Sim, que a virtude só zomba da morte. E de pé sobre a laje do sepulcro Do vivo para o morto um culto pede!

De lá, ó Isabel!, teu nome Augusto De apoteoses mil cercado surge... Ele as funéreas trevas aguardava, Para brilhar no céu, como rutilam

Nos céus os astros, quando a noite arroja Seu manto opaco e negro sobre a terra. Junto às portas do céu arremessaste A túnica de carne, que trajavas

Da milícia da vida nos combates, Como junto ao portal do alvergue amigo Arremessa o guerreiro fatigado As pesadas, inúteis armaduras,

Para gozar tranquilo e sossegado Sono de paz em leito abençoado Por destra paternal. A Glória é tua! Bem conhece a razão esta verdade;

Mas zomba da razão da mágoa a força; E, apesar da razão, medra a saudade!... Quanto mais bela te divisa o mundo, Mais deseja gozar-te, alma bendita!...

Mais punge a tua ausência o peito ausente De Teus Filhos, Teus Netos e Teu Povo. Ah! lança lá do Céu a bênção Tua Sobre o mundo; consola o mundo aflito...

Faze que o céu nos dê valor, constância, Para os males sofrer que nos flagelam! — E, se lá do Empíreo minhas vozes Gratas te são, acolhe meus suspiros!...

Inspira-me essas frases lamentosas, Com que de minha dor modero as iras; Afina a lira débil que votou-te O Vate Brasileiro aos Régios Manes!

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