Skip to content
1826–1864

BANDO

Laurindo José da Silva Rabelo

Eia, Baianos, raiar Vai na terra do Cruzeiro Esse dia tão jucundo, Que, apesar de ser segundo,

Há de sempre ser primeiro! Não deixes despercebido O rei dos dias passar, Mostrai que não sois escravos,

Mostrai que o dia dos bravos Inda sabeis festejar! Se o misérrimo que sofre Da escravidão os rigores,

Às vezes repete a história Dos seus passados de glória Nas senzalas dos senhores; Nós livres, a quem escravos

Inda não pôde fazer O furor do despotismo, Nossos feitos de heroísmo Não devemos esquecer.

Não devemos esquecer Esse dia, a cuja luz Os deus dos Americanos Escreveu — morte aos tiranos —

Nos braços da Santa-Cruz. Esse dia que provou Com solene majestade Ao vil tirano atrevido,

Quanto pode um povo unido, Quando grita — liberdade — Com as frontes coroadas De louros vamos cantar

Hinos aos fortes soldados, Que valentes, denodados, Nos souberam libertar. Todos os ódios se esqueçam,

Demo-nos todos as mãos, E empenhemos nosso orgulho Em festejar dous de julho, Em um banquete d’irmãos!

Nem receeis que algum braço, Que para nos esmagar Ocultamente trabalha, Da nossa mesa a toalha

Venha com sangue manchar. Não, que tem a liberdade Seus amores neste dia, E, temendo as iras dela,

Se atormenta, se arrepela, Mas não fala a tirania. Comece pois o festim, E nas galas sem rival

Entre as ledas comitivas, Impelido pelos vivas Rode o carro triunfal. Saia à noite, que não há de

Cobri-lo da noite o véu; Brandões hão de iluminá-lo, De luzes hão de banhá-lo Os candelabros do céu!

Nele do dia dos livres Veja o formoso arrebol, Essa cabocla engraçada Que tem a face tostada

Dos beijos que deu-lhe o sol! E quando voltar dirão Com toda a gente os louvores, O mar por canhões bradando,

Os ares vivas troando, A terra brotando flores! Seja então tudo prazer, Tudo sonoras canções,

Tudo banquete de bravos, Tudo remorsos de escravos Que inda desejam grilhões! Eia, Baianos, raiar

Vai na terra do Cruzeiro Esse dia tão jucundo, Que, apesar de ser segundo, Há de sempre ser primeiro.

Não deixeis despercebido O rei dos dias passar, Mostrai que não sois escravos, Mostrai que o dia dos bravos

Inda sabeis festejar.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
BANDO · Laurindo José da Silva Rabelo · Poetry Cove