Inda uma vez tanjamos A lira, e mais um hino Consinta-me o destino Erguer nos cantos meus;
Que vá, de sons profanos Despido e desquitado Em vôo arrebatado, Voando aos pés de Deus.
Da liberdade a estrela No berço da inocência Derrama a providência De duas redenções;
Mostrando um’alma limpa Do crime primitivo No corpo de um cativo Que quebra os seus grilhões.
Que assunto mais merece Um hino de poesia? Que dia tem mais dia? Que feito tem mais Luz?
Do cativeiro um anjo Quebrando infames laços, À cruz estende os braços E os braços lhe abre a cruz.
Perfilha Deus o anjo Na filiação da graça, E o ser que o crime embaça Puniu a redenção!
E o homem, dissipando Do berço insano agravo, Em menos um escravo Abraça um novo irmão!
Que foras, inocente, Que foras, nesta vida, Da escravidão perdida No bárbaro bazar!?
Pobre rola ferida Da infâmia pelo espinho, Em que ramo, em que ninho Te havias de aninhar?
Infante, sem afagos, Temendo-te altiveza, Querendo-te a vileza Plantar no coração,
Dariam-te nos gestos, Nas vestes, no aposento, Na mesa, no alimento, Somente — escravidão!
Donzela (oh! sacrilégio!) Amor, qual flor sem viço, Mil vezes é serviço Que fero senhor quer!
É dor que o fel requinta, Que a ímpia sorte agrava Daquela que é escrava Depois de ser mulher!
Se mãe (é mãe escrava!) Quem sabe se verias Teu filho mãos ímpias Do seio te arrancar?
E surdos ao teu pranto Mandarem-te com calma Do seio da tua alma A outro alimentar?!
Criança mas sem veres Da infância as verdes cores, Donzela sem amores, Talvez alam sem Deus!
Não foras arrastada Da vida pelos trilhos, Nem tu, e nem teus filhos Seriam filhos teus.
Ó vós que hoje lhe destes O dom da liberdade, Que junto à divindade Matais a escravidão,
Ao trovador propícios De ação tão excelente Em culto reverente... Guardai esta canção.
Eu sei que haveis guardá-la, Que em tão santa amizade Não vem a variedade Deitar veneno atroz.
Sou vosso desde a infância: Da vida até o fim Sereis tanto por mim Como serei por vós!
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