Secou-se a rosa... era rosa; Flor tão fraca e melindrosa, Muito não pôde durar. Exposta a tantos calores,
Embora fossem de amores, Cedo devia secar. Porém tu, amor-perfeito, Tu, nascido, tu afeito
Aos incêndios que amor tem, Tu que abrasas, tu que inflamas, Tu que vegetas nas chamas, Por que secaste também?!
Ah! bem sei. De acesas fráguas As chamas são tuas águas, O fogo é água de amor. Como as rosas se murcharam,
Porque as águas lhes falharam, Sem fogo murchaste, flor. É assim, que bem florente Eras, quando o fogo ardente
De uns olhos que raios são, Em breve, mas doce prazo, Te orvalhou naquele vaso Que, já foi meu coração.
Secaste, porque esse pranto Que chorei, que choro há tanto, De todo o fogo apagou. Triste, sem fogo, sem frágua
Secaste, como sem água, A triste rosa secou. Que olhos foram aqueles! Quando eu mais fiava deles
Meu presente e meu porvir, Faziam cruéis ensaios Para matar-me. Eram raios, Tinham por fim destruir.
Destruíram-me: contudo Perdôo o pesar agudo, Perdôo a pungente dor Que sofri nos meus tormentos,
Pelos felizes momentos Que me deram nesta flor. Ai! querido amor-perfeito! Como vivi satisfeito,
Quando te vi florescer! Ai! não houve criatura No prazer e na ventura Que me pudesse exceder.
Ai! seca flor, de bom grado, Se tanto pedisse o fado, Quisera sacrificar Liberdade e pensamento,
Sangue, vida, movimento, Luz, olfato, sons e ar. Só para ver-te florente, Como quando o fogo ardente,
De uns olhos que raios são, Em breve, mas doce prazo, Te orvalhou naquele vaso Que já foi meu coração.
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