Se fosse possível na minha alma Amanhecer um dia da ventura, Corado por um beijo de donzela Ao despontar d’aurora...
Se, Anjo de salvação mandado ao mísero, Sorrindo, pelo céu jurasse a bela Fazer-me cada vez por novos beijos Mais rubra a cor do dia...
Se fiel companheira em toda parte Quisesse me seguir, presa comigo, Como um raio celeste preso a um astro A iluminar-lhe o curso...
Se a visse, desdenhosa a mil tesouros, Só por ter-me, deixá-los e contente A gabar-me o sabor do pão grosseiro Que me alimenta a vida...
Não a crera; e talvez que até julgasse Tantas provas de amor atroz perfídia, Se amor me não brilhasse nos seus olhos No centro de uma lágrima.
Amor é fogo; o coração que ama Todo nas suas chamas se evapora, No rosto se condensa, e chega aos olhos Em água convertido.
Que é um riso? — Um prazer. Prisão estreita De duas almas? — Simpatia apenas: E os abraços e beijos? — Muitas vezes Sustento de lascívia.
Tudo isso diz amor; mas quando? — Quando, Filho de um doce afeto que se apura Nos cadinhos da dor, é batizado, Num batismo de prantos.
É belo ver-se uns olhos cintilantes, Acesos em vulcões de fogo ignoto, A dardejar faíscas invisíveis Que os corações abrasam:
É belo ver-se um rosto nacarado No carmim do prazer: é belo ver-se Partir fino coral de rubros lábios Um sim d’alma saído:
Mas em rostos assim amor não fala; E, se fala, as mais vezes diz mentiras; E este — sim — que tomamos por verdade É escárnio do crente.
Quereis vê-lo sincero? Observai-o N’açucena de um rosto desmaiado, Entre os lírios de uns lábios que roxeiam Suspiros de agonia:
Nuns olhos, cuja luz crepusculante, Entre a neve das lágrimas, pareça Revérbero da alâmpada mortiça Do templo da saudade.
Aí podeis lhe crer o que disser-vos, Podeis segui-lo sem temer um crime; Que amor, se o pranto lhe borrifa as asas, Seu vôo ao céu dirige.
Cookies on Poetry Cove