Do corpo os olhos mortos,
Senhor, temos em vida;
Porém na desabrida
Mágoa do mal atroz,
Celeste medicina
A nossa dor acalma;
Propícia aos olhos d’alma
A luz nos vem de vós.
A luz da inteligência,
Crescente pelo estudo,
Na claridade, em tudo
Que a outra vale mais.
A luz externa a tudo
Concede a providência;
A luz da inteligência
Só toca aos racionais;
E esta vos devemos.
O cego desvalido
Por vós hoje instruído
Calcula, escreve e lê,
Se em trevas tropeçando
Só tem no mundo escolhos,
Aos céus levanta os olhos,
E vê o que alma vê.
Monarca no poder,
Monarca na bondade,
Na dupla majestade
Com que sois rei, senhor,
Se tendes quem beijar-vos
A mão de rei deseje,
Mais tendes quem vos beije
A mão de benfeitor.
E quanto as obras vossas
Por Deus são estimadas,
Na esposa e prole amadas
Mais que patente está;
Nas ditas, na ventura
Que tendes no seu grêmio,
Dos bens que dais, em prêmio
Na terra, o céu vos dá.
Deste reinado a história
De glória e f’licidade,
Para adorar-vos há de
O mundo inteiro ler.
Hão de escrevê-la sábios
De méritos subidos,
Mas hão de os desvalidos
A mor parte escrever.
Então, também louvando
Voss’alma benfazeja,
Um cego que mais veja,
Dos muitos que aqui estão
(Talvez em prosa altiva,
Ou sublimado metro),
Dirá que o vosso cetro
Dos cegos foi bordão.