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1826–1864

A SAUDADE BRANCA

Laurindo José da Silva Rabelo

Que tens, mimosa saudade? Assim branca quem te fez? Quem te pôs tão desmaiada, Minha flor? Que palidez!...

Ah!... já sei: n’um peito vário Emblema foste de amor: O peito mudou de afeto, E tu mudaste de cor.

Mas não; só peito animado Por constância e lealdade, Unida pode trazer-te Consigo, minha saudade.

Demais tu não mudas; seja Qual for o destino teu, Conservas sempre o aspecto Que a natureza te deu.

Que tens, mimosa saudade? Assim branca quem te fez? Quem te pôs tão desmaiada, Minha flor? Que palidez!

Quem sabe se és flor, saudade? Quem sabe? Da sepultura Amor nas pedras penetra Por milagre da ternura.

Quem sabe... (Oh! meu Deus não seja, Não seja esta idéia vã!) Se em ti não foi transformada A alma de minha irmã?!

“Minha alma é toda saudades; “De saudades morrerei” — Disse-me, quando a minh’alma Em saudades lhe deixei:

E agora esta saudade Tão triste e pálida... assim Como a saudade que geme Por ela dentro de mim!...

A namorar-me os sentidos! A fascinar-me a razão!... Julgo que sinto a voz dela Falar-me no coração!

Exulta, minh’alma, exulta!... Aos meus lábios, flor louçã! No meu peito... Toma um beijo... Outro beijo, minha irmã!

Outro beijo, que estes beijos Não te proíbe o pudor; Sou teu irmão, não te mancham Os beijos de meu amor.

Fala um pouco. Se almas podem Em flores se transformar, Sendo almas encantadas, As flores podem falar.

Mas não falas?... não respondes?... Oh! cruéis enganos meus! Saudade, por que me iludes? Minha irmã!... Meu Deus!... Meu Deus!...

Minha irmã!... minha ventura, Esperança, encanto meu! É teu irmão quem te chama!... Responde!... fala!... Sou eu!

Dista muito o céu da terra? Os anjos asas não têm? Desata um vôo, meu anjo! Não tardes, meu anjo! Vem!

Vem! Ao menos um momento Quero ver-te, irmã querida: Embora, depois de ver-te, Fique cego toda a vida.

Mas não vens? Deus te não deixa Vir ao mundo, meu amor? Só devo encontrar no pranto Lenitivo à minha dor?

Ah! minh’alma desfalece... E o coração, que apressado Com tanta força batia, Mal palpita... está cansado.

Muda, sem termos, nem vozes Me vai ralando a agonia: A tempestade de angústias, Mudou-se em melancolia.

Que é isto?! Como tão negro Ficou-me todo o horizonte! Que suor me banha o rosto! Que peso sinto na fronte!

Ah! meu Deus! graças! aos olhos O pranto sinto chegar; Se a boca não fala, ao menos Os olhos podem chorar.

Nós temos duas saudades; Uma de sangue ensopada Pela mão do desespero No seio d’alma plantada;

Outra da melancolia Toma o gesto, e veste a cor, Exangue, pálida e fria, Mas calada em sua dor.

Parece que a natureza Quis provar esta verdade, Quando diversa da roxa Te criou, branca saudade.

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