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1826–1864

A LINGUAGEM DOS TRISTES

Laurindo José da Silva Rabelo

Se houver um ente, que sorvido tenha Gota a gota o veneno da amargura; Que nem nos horizontes da esperança Veja raiar-lhe um dia de ventura;

Se houver um ente, que, dos homens certo, Neles espere certa a falsidade; Que veja um laço vil num rir de amores, Uma traição nos mimos da amizade;

Se houver um ente, que, votado às dores, Todo com a tristeza desposado, De cruéis desenganos só nutrido, Somente males a esperar do fado;

Que venha, acompanhar-me na agonia, Qu’esta minh’alma, sem cessar, traspassa! Venha, qu’há muito luto, a ver se encontro Quem sinta, como eu, tanta desgraça

Venha, sim, que talvez por nosso trato Uma nova linguagem seja urdida, Em que possam falar-se os desgraçados, Que do mundo não seja traduzida.

Por lei inexorável do destino, Quem gemer à desgraça condenado, Inda lidando no lidar do mundo, Há de viver do mundo desterrado.

E em que desterro! Os outros só nos tiram Os olhos do lugar do nascimento; A desgraça, porém, do mundo inteiro Desterra o coração e o pensamento.

Ao menos a linguagem deste exílio Mais suportável torne a vida crua; Tenha ao menos a terra da desgraça Uma linguagem propriamente sua.

E quem tê-la melhor? Por mais que fale O sedutor prazer em frase ardente, Por mais que se perfume e se floreie, Nunca é, como a dor, tão eloquente.

Nos fenômenos d’alma o corpo sempre Do seu modo de obrar diversifica: Pelas quebras da orgânica fraqueza A força esp’ritual se multiplica.

Quando, livre, o esp’rito aos céus remonta, Da Eternidade demandando o norte, Toda força primeva recobrando — Tomba a matéria, e cai nas mãos da morte!

Quando o gás do prazer dilata o seio, A força do sentir dormente acalma; Quando a pressa da dor o seio aperta, A força do sentir se expande n’alma.

Assim novas palavras, novas frases, Nova linguagem, pede o sofrimento; Porque dobra o sentir, e duplas asas P’ra vôos duplos colhe o pensamento:

Não, não pode em seus termos quase inertes, Esse falar comum de cada dia, Deste duplo sentir, d’idéias duplas, Exprimir fielmente a valentia.

Enganai-vos, ditosos! Vossas falas, Anos que falem, nunca dizem tanto, Quanto num só momento dizer pode Um suspiro, um soluço, um ai, um pranto.

Eia, pois, tristes! eia!... desde agora Uma nova linguagem seja urdida, Em que possam falar-se os desgraçados, Que do mundo não seja traduzida.

Veja o mundo, de gozos egoísta, Qu’os tristes nada têm de suas lavras: Que, orgulhosos na pátria da desdita, Nem dos ditosos querem as palavras.

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