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1826–1864

A DESPEDIDA

Laurindo José da Silva Rabelo

Adeus, adeus, é chegada A hora da despedida. Vou, que importa se te deixo Neste adeus a minha vida.

Foste ingrata aos meus extremos, Não te peço gratidão; Perdão — para os meus carinhos, Aos meus amores — perdão!

Eu era ente da terra, eras um querubim! Deus tirou-te dos seus anjos, Não nasceste para mim.

Perdoa a meus amores Esta estulta elevação; Perdão para os meus carinhos, Aos meus amores — perdão!

O crime que cometi Foi muito punido já, Castigou-me o teu desprezo, Maior castigo não há.

Castigado, reconheço Quanto é justa a punição. Perdão — para os meus carinhos, Aos meus amores — perdão!

Pouca vida já me resta! Eu sinto que esta amargura Tão intensa muito cedo Há de abrir-me a sepultura.

Do crime que fiz de amar-te, Vem dar-me a absolvição: Perdão — para os meus carinhos, Aos meus amores — perdão!

Se me adoras, se me queres, Como dizes com ardor, Dá-me um beijo tão-somente Em prova do teu amor...

A paixão em que me abraso Dilacera o peito meu... Dá-me prazer, dá-me vida, Dá-me, dá-me, um beijo teu.

Amor anima e acende Em chamas do céu nascidas... Dois corações num abraço, Em um beijo duas vidas.

Uma vida que me falta..., A metade do meu ser Quero num beijo amoroso Dos teus lábios receber.

Sumiu-se, mas ainda escuto, Seus gemidos, que aflição! E esta mancha deste sangue Não se apaga. Oh! maldição!

Espectro, descansa, Que ao triste homicida As dores do inferno Começam na vida.

Ei-lo ali com o mesmo ferro. Oh! que terror! que tortura! Cavando junto a meu leito, A abrir-me a sepultura.

Espectro, piedade; Não caves assim... Eu dei-te um só golpe Tu mil sobre mim.

Acabou-se a minha crença, Sem crença devo morrer: Quando deixei de crer nela, No que mais poderei crer?

Onde a verdade Pode fulgir, Se até um anjo Sabe mentir?

Como um anjo me jurou, Como um anjo me sorriu, Como um anjo perjurou, Quebrou a jura — mentiu!

Onde a verdade... No olhar e nas palavras Onde a inocência respira, Em tudo que diz — verdade,

Só encontrei a mentira. Onde a verdade... Que mais desejas? Tudo te dei;

De tudo em troca Nada alcancei. Dei-te meu peito Em pranto e ais;

Dei-te minha alma; Que queres mais? Juraste eterna Fidelidade;

Seguiu-se à jura A falsidade. Em toda parte Vejo rivais;

A fé perdi-te, Não creio mais. Se não me queres, Se não me adoras,

Quando me queixo Que tens que choras? Ah! não me prendes No pranto teu;

Não quero um pranto Que não é meu. Mas, oh! perdoa! Foi ilusão;

Dos meus tormentos Tem compaixão. Perdoa, esquece O meu rigor;

Não fere a ofensa Que vem de amor.

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