Senhora, foste ver o meu querido filho Que tão doente está, Prestes, (Quem sabe lá?) A fechar para o mundo as pálpebras tranquilas,
Dentro das quais existe o amortecido brilho Dos luares de junho a encher-lhes as pupilas De um palor que se espalha Como se fosse, assim, uma triste mortalha?...
E foste ver um coração materno Como o teu, igual ao teu, Tão terno, Que junto ao filho seu
Passa noites inteiras a fitá-lo, E a velá-lo, Sem dormir, sem comer, sem beber água, Sem descanso nenhum, como é comum
Às mães que sentem n’alma o vinagre da mágoa? E foste ouvir, Senhora, Aquele coração que tanto chora Aflitamente,
Há dois anos seguidos, Junto ao filho querido, Não por vê-lo morrer, mas por vê-lo sofrer Lentamente?
Contemplaste, Senhora, o roxo das olheiras, As violetas machucadas Dos olhos pensativos, doloridos Dessa mulher que passa horas inteiras.
Muitos dias compridos. A te enviar o triste olhar Que é a mais viva expressão do clamor, dos anseios, E das rezas concentradas e abafadas
No vale branco e cândido de seus seios? E viste-lhe no rosto os lívidos traços De um profundo desgosto? E viste-lhe os braços
Estendidos ao céu que ela vê através Dos buracos das telhas, Crivado de centelhas? Desse céu todo azul, refúgio dos tormentos
Os quais são como os ventos Que arrastam pelo campo as rosas e os junquilhos? E os nossos filhos Que mais são, no mundo, ao nosso lado,
Do que rosas e junquilhos? Viste-lhe o cálice torturado Da boca, e lhe provaste o mosto esverdinhado, Bem como o de um licor feito do fel
Tristíssimo e cruel, Só bebido por quem mora na própria dor? Assim, de joelhos trêmulos no chão, Em mãos juntas,
Fiz essas perguntas À Nossa Senhora da Conceição. E Ela, tão meiga, e de tão lindo olhar, Companheira de todos os fiéis,
Deixou-me ver, então, Nos floridos degraus do seu altar, Entre lírios nevados, E entre o Pão e o Vinho,
A marca dos seus pés ainda molhados Das lágrimas do orvalho do caminho...
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