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1865–1927

Todas as mães

Juvêncio de Araújo Figueredo

Todos dizem que o seu filho Não tem nos olhos o brilho Que noutros olhos corusca; Nem na boca a cor vermelha

Da rosa em que loura abelha Doçuras e aromas busca. Nem tem nas maçãs das faces Das belas maçãs vivaces

A tinta que é cor do sangue; Antes a cor macilenta Que a febre contínua e lenta Produz no organismo langue.

Nem tem sedosos cabelos Encrespados, em novelos, Em derredor do pescoço; Nem uns ombros delicados,

Antes ambos transformados Num tronco mal feito e grosso. O seu nariz não se mede, Nem outro nariz o excede

Em contornos singulares... E tem nas linhas do queixo O formidável desleixo Dos artistas populares.

Suas orelhas caídas Se apresentam retorcidas Como os caracóis no pasto; E a larga testa parece

Uma pedra que se aquece Ao relento do céu vasto. E os seus convulsivos braços Lembram bem os dos palhaços

Nos circos de cavalinhos; E as suas mãos convulsivas Têm as falanges cativas Como as que estão nos .

Ventre redondo e disforme, Lembra o de um sapo que dorme Em frente da sua casa; E as suas pernas esguias

São as desse sapo, frias, Quer o dia seja brasa... E, além de tudo, tudo, O seu filho é surdo-mudo,

E também não tem juízo; Nem anda de corpo terso: — Vive deitado num berço Todo o tempo que é preciso...

Filho feio, o da Josefa; Mas vive ela na tarefa De lhe dar frementes beijos, E os carinhos e os afagos

Dos seus negros olhos magos, De sonhares benfazejos. Assim são, no mundo vário, Todas as mães que o rosário

Dos sofrimentos desfiam, E com a maior verdade, Ó Virgem da Piedade, Nas tuas graças confiam.

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