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1865–1927

Socorrendo os náufragos

Juvêncio de Araújo Figueredo

A tarde, toda azul, era um lírio orvalhado, Dentro do qual o sol parecia um besouro Poeirado de ouro. E quando o sol rolou de dentro dessa flor,

Como se lhe tivesse alguém, com mãos estranhas, Jogado para trás da curva das montanhas, Fez-se ouvir, muito ao longe, um som repercussor, Bem parecido com o de um grande canhão.

Era a repercussão de um longínquo trovão Pejando a nuvem que, ao sul, se levantava, Pouco a pouco se aproximava... Até então,

Todo o campo verduengo; e as praias; e a planura Do mar aveludado; e todos os riachos Da esplanada da vila; Tudo, tudo isso ardia em diamantinos fachos,

Em completa iluminura, Numa luz suavíssima e tranquila. Até então, Tudo quanto se via em derredor da Ilha

Era uma maravilha de esplendores De variadas cores; E de gritos infinitos De luxúrias, nas ervas e nas flores,

E no arvoredo à beira dos caminhos, Por sobre o qual trinavam passarinhos, E zumbiam abelhas... Da casaria nas recurvas telhas,

E pelas vidraças das janelas, Os reflexos do sol abriam-se em tecidos De aranhol. Pela fita das praias

Em dalmáticas, fúlgidas alfaias, Que pinceladas amarelas, De óleos batidos com topázios diluídos!... Até então,

Todos os corações achavam-se vestidos De tranquilidade, Sob o vivo esplendor, a viva claridade Do sol de ouro,

Que, no lírio do céu, parecia um besouro. Mas a nuvem chegou, E tudo que era belo se nublou. Fez-se uma escuridão

Como se fosse um monte de carvão. Despencaram-se do ar rolos de ventos Sinistros, tenebrosos, agourentos... E outro trovão rolou, entre línguas de fogo,

E logo a chuva se alastrou, Peneirada de lado, ao correr das lufadas. Que alvoroço e temor, pelas estradas! Mas o muito maior e fremente alvoroço

Deu-se na praia do mar grosso, Quando a lancha do João, Vinda da pescaria, Apanhando o tufão,

Ora às ondas subia, ora às ondas descia, Com a vela molhada a rastejar nas ondas, Sobre um fundo sem termo, onde não vão as sondas... Sendo o barco afinal, levado,

De quilha para cima, às rochas do pontal De onde, peito aflitivo, alucinado Uma pobre mulher fazia-lhe um sinal. Vinha ao leme, o João; e o Pedro, vinha à escota

De vela toda rota... Porém, nem mesmo assim, o barco não deixou De virar-se, e alijar Os rapazes ao nado... E eles, os dois, coitados!

Com os remos desprezados, E braços fatigados, Ao se verem no mar e tamanha fadiga, Nessa luta inimiga,

Lembraram-se de ti, Nossa Senhora. Nessa hora A treva fez-se luz; e fez-se, o mar bravio. Um rio...

E num momento, Acabou-se também toda a fúria do vento. Os rapazes lutaram Mas à praia chegaram

Com salvamento. Ah! que instante feliz para os rapazes, Para esses crentes corações audazes!... E a tia Margarida,

Uma velhinha que levava a vida A rezar... a rezar Pelos que viviam, tristes, a lutar Contra as ondas do mar,

Muito admirada ficou, muito admirada, Porque nem tu, Senhora dos Navegantes, Nem o teu barquinho, De bujarrona de cetim e arminho,

Durante esse momento De tanto mar furioso e tanto vento, Foram vistos por ela em teu florido altar!

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