Skip to content
1865–1927

O mais belo destino

Juvêncio de Araújo Figueredo

Maria, o meu vizinho Acaba de perder o seu meigo filhinho, O mais humilde cordeirinho Deste lugar.

Esse humilde cordeirinho Possuía no olhar uma doçura tal Que parecia a da água de um riacho A correr, e a cantar por baixo

De um florido roseiral. A sua boca recordava Uma fruta sazonada, Muito encarnada,

Que ele próprio trincava De uma maneira singular. Ao vê-la, os colibris, cansados de voar, Procuravam-na sugar.

E que mãos tão bonitas tinha ele! E do seu rosto a pele Lembrava os jambos quando amadurecem Sob os raios do sol, que do alto descem

Em centelhas Como se fossem rútilas abelhas, Para mordê-los. E os cabelos

Caiam-lhe na nuca, desmanchados, Aos punhados... E quando o vento os sacudia, A luz clara e puríssima do dia,

A gente se lembrava dos trigais E do mel das abelhas. Eram louros assim, e muito mais Do que as asas

Do canário das telhas Das nossas casas. Ao encontrá-lo na estrada, à sombra dos pinheiros, Onde trinam coleiros,

Eu me sentia bem, diante do seu olhar, E não tinha vontade De sair de onde estava, na verdade. O seu olhar possuía

A doçura da água de um riacho A correr e a cantar, Por baixo de um florido roseiral. Pelas manhãs azuis, muito cedinho,

Ele, o filhinho do meu vizinho, Era encontrado já pelas coivaras, A retinir a enxada, Entre o veludo verde das searas.

Antes, porém, deixava No balouçante ramo De uma árvore, na estrada, Sua gaiola dependurada,

Dentro da qual cantava, prisioneira, A alma bizarra e alvissareira De um gaturamo. E, de guilhada atravessada

Por trás da nuca, e braços em balança, E balanceios no andar, Ele, embora criança, Já sabia guiar uma junta de bois.

Pelos morros acima, Aos solavancos, entre os matagais, Guiava os animais Com o guizo de prata de uma rima

A vibrar-lhe na boca; e com aquele olhar Que parecia a água de um riacho, A correr e a cantar Por baixo de um florido roseiral.

E lhe queriam bem, aqueles bois! Não tinha, o meu vizinho, Senão esse filhinho; O seu melhor amigo, o que já trabalhava,

A cantar satisfeito, para o monte... Mas, ao descer cansado, A frente dos seus bois, meteu-se numa fonte, No caminho,

E, por isso, apanhou uma constipação Que o levou para a cama, de tal jeito Que lá está, o cordeirinho, De mãos postas ao peito,

Todo gelado... E não lhe bate mais, o coração! Dessa virgem corola De açucena, evolou-se o aroma casto...

Sobem a estrada florida do pasto, Os meninos da escola, Que, ao saberem da nova, Vieram buscá-lo para a fria cova...

Vim apenas orar, com piedade e carinho, Pelo seu pai, o meu vizinho. Enxuga-lhe, Maria, o amargo pranto, Com os lenços brancos do teu amor

Tão santo; E que toda a aflição Do seu magoado coração Mergulhe no esplendor

Do teu sublime espírito divino, Para que ele possa imaginar, Sem blasfemar, Que o mais belo destino de um menino,

Com uma Estrela ao norte, está na morte.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.