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1865–1927

No Campo Santo

Juvêncio de Araújo Figueredo

Nossa Senhora, cheguei agora Do Campo Santo, e dentro dele, Na dor que impele o amargo pranto, Uma mãe vi chorar a sorte

De quem, na morte, morava ali: Chorava o filho, que o lindo brilho Do olhar perdera, como perdera A linha rosa de primavera,

Casta e cheirosa, da meiga boca Que ela beijava seguido, e louca, Quando, ansiosa, o amamentava. Mesmo o menino, era o divino

Retrato amado de um querubim, Com os cabelos sempre em novelos De fios de ouro e de cetim. Em cada face, uma vivace

Papoula havia, toda orvalhada Da luz dourada de um claro dia. Uma covinha engraçadinha Ei-la no rosto, de lado a lado,

No sazonado fruto de agosto. — Graça lhe dava, quando ele, rindo, Cantarolava... cantarolava... Bem crescidinho, fez-se roceiro;

E, no caminho, de quando em quando, Cantarolava... Cantarolando Ia deixando, na paz dos vales; Pelas escarpas, ais de atabales,

Gemidos de harpas, soluços de harpas... Livre dos tombos, caçava pombos, Pelas coivaras; e, nas florestas, Ardendo em festas, caçava araras...

De manhã cedo vagava ledo, Numa canoa... E quantas vezes Guiava as reses para a lagoa. Do carro à frente sempre imponente,

Chamava os bois; e, pelo barro, Ouvia o carro chiar depois... E, no terraço, a mãe ao vê-lo, Erguia o braço para prendê-lo,

Porque no mundo só ele havia, Na poesia do amor profundo... E meditava: — “Se acaso a morte Um dia viesse, e lhe trouxesse

Uma mortalha, das que espalha No mundo inteiro, dentro da mesma Corpo de lesma ela seria, Porque ninguém cismar podia

No grande bem que ela nutria Por esse filho, por esse filho. Mas veio a morte, faca de corte, E o lindo brilho do olhar do filho

Querido, amado, ei-lo cortado De uma maneira traiçoeira... E então a alma da mãe, sem calma, Sem um sossego, viu-se no pego

Dos sofrimentos... E os seus lamentos Negros, estranhos eram tamanhos Dos próprios ventos agourentos. E aquela pobre mãe tão tristonha

Ajoelhada sobre o frio chão, Como quem sonha parece estar: — Olhos fechados, amortalhados, Na compaixão de um triste luar...

Luar funéreo que ao cemitério Profundo desce como uma prece. E como eu tenho a convicção Da alma voar para a Mansão

Celestial, na ocasião Em que a morte, faca de corte Nos corta a vida bem definida, Bem material... E como tenho

Toda a certeza que amor igual Ao maternal não há no mundo; Por isso venho, Nossa Senhora Pedir, nesta hora, o almo consolo

Que no teu colo é ninho eterno E nos teus lábios, doces ressábios De áureo falerno; e nos teus olhos, Luz infinita, para os escolhos;

E em tua mão, a direção Que necessita, no mundo vão, Nosso triste coração. Vai até lá ao Campo Santo,

E reviver... Nossa Senhora, e com teu manto Enxuga o pranto dessa infeliz Que não quis ouvir dizer,

Que a gente nasce para morrer.

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