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1865–1927

No além

Juvêncio de Araújo Figueredo

Aonde vais com tanta pressa, Ó minha velha querida? — Vou pagar uma promessa Há bom tempo prometida.

— A que santa a prometeste, E por quem? dize, Maria. — Pois então já te esqueceste? Foi naquele triste dia...

— À Virgem Nossa Senhora, Que é a nossa linda Estrela, No dia em que foste embora, Fiz promessa de uma vela.

— Ah! bem me lembro, Maria! Foi naquele triste dia... Pediste para que eu voltasse A mornura dos teus braços,

E entre carinhos gozasse O aperto de tantos laços... — Foi mesmo naquele dia, Em que aflita te dizia:

Não te esqueças de Maria, Que morrerá de saudade Se não tiveres piedade Do seu amor de quinze anos.

Mas que tristes desenganos, Que ilusão neste mundo, Neste abismo tão profundo! Foste embora, e só vieste

Quando te viste casado, Que amarguras me trouxeste Ao coração desprezado. — Mas, velhinha, se te vejo,

Ainda graças te desejo. E eu que sou também um velho, Dou-te, velhinha, um conselho: Implora à Virgem Maria,

Que no Além, num belo dia, Possamos nos encontrar, E, por certo, nos casar; Pois assim te pagarei

O amor que me tiveste, E o quanto por mim sofreste, Quando moça, que nem sei Se haverá, no tempo de hoje,

Que é nuvem que ao vento foge, Quem, da flórea mocidade A velhice, o gozo esqueça E impoluta permaneça

Na mortalha da saudade.

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