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1865–1927

Na mesma cova

Juvêncio de Araújo Figueredo

Ainda guardo em memória Uma pequena história Que minha mãe contou, ao serão, numa noite Em que o vento sul era um contínuo açoite

No telhado do engenho onde se farinhava No frio mês de julho, Ao trêmulo barulho Da almanjarra a rodar, e o fogo no forno,

Em torno De pedaços de mangue. A minha mãe contou: “Havia nesta aldeia um velho, o Constantino,

De cem anos talvez, Embora de tez langue, Possuía a lucidez De um menino...

Entretanto ninguém dele se avizinhava Porque a sua usura era descomunal: Não queria ninguém junto à sua morada, Nem mesmo consentia

As aves lhe pousar na cerca do quintal; E lhes armava sempre uma grande esparrela, Na qual, durante o dia, Descuidoso caía

Um chupim, Que lhe dava, ao jantar, um suculento prato, Com farinha de aipim. Coração sempre ingrato.

Se lhe pedia um pobre um mísero vintém, Ei-lo a mandá-lo andar, e a pedir noutra porta. Ignorava, portanto, as primícias do Bem, Que começa na luz que o sol no azul recorta.

E para acumular mais moedas de prata, Nem perdia da lua o pálido esplendor; E junto da cascata Que além formava um rio,

Ei-lo no rude afã, Trabalhando de enxada Até de madrugada, Até surgir no morro a estrela da manhã.

Certo dia, porém, encontraram-no frio Sobre a curva de um rio... E o Constantino Lá se foi, pela tarde, a fora, à voz do sino

Da ermida do lugar, conduzido, num carro De bois, até à cova entalhada no barro De um cemitério triste, à sombra de ciprestes. Eram-lhe as vestes

Uns trapos, na miséria a mais original; E o seu caixão Era tão negro, igual A uma montoeira de carvão.

E da prata do Constantino Ninguém soube o destino. Mas passados uns anos, toda a gente Começou a dizer que na casa em ruínas

Que ele havia deixado aos ratos e às aranhas, À noite, sob a gaze das neblinas, Uma luz se mostrava; e umas coisas estranhas Faziam, nessa casa, um barulho estridente.

Como ainda revejo na memória Essa pequena história, Que minha mãe contou, ao serão, nessa noite Em que o vento sul era um contínuo açoite

No telhado do engenho, O meu maior empenho É orar... orar... Pelo Constantino Que ainda não saiu de cima do lugar

Onde se acha escondido O seu tesouro, adquirido Com tanto desatino, À luz do sol, à luz do luar, à luz dos astros...

E dos barcos que vêm, com flâmulas nos mastros Fazer a guarda nesse rio, A maruja lhe escuta o rude murmúrio, Nas suas águas vendo a velada figura

Do Constantino a olhar a sua própria usura. Ah! Virgem Senhora da Conceição, Aonde está a miséria Deletéria,

Aí, na mesma cova, está o coração!

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