Da ermida onde nós oramos
Os horizontes fitamos...
A ermida da nossa crença
Está numa altura imensa.
É-lhe a fé toda a argamassa;
E nas torres se entrelaça,
Como um Arco de Aliança,
A bandeira da Esperança,
Desfraldada aos quatro ventos
Dos nossos padecimentos,
Para que eles se transformem
Em alegrias, e formem
O halo das nossas frontes,
Pela luz dos horizontes...
Da ermida onde nós oramos
Os horizontes fitamos;
E nas suas lindas cores
Bendizemos nossas dores.
Nossas lágrimas, choradas
Pelas mais negras estradas.
Nossos clamores convulsos,
E os elos dos nossos pulsos.
Nossos olhos apagados;
Nossos ouvidos fechados;
E os nossos próprios cabelos
No polvo dos pesadelos;
Nossa boca no vinagre;
E nossas faces no ozagre.
Nossas linhas do pescoço
Na algema de um calabouço.
Nossos corações pulsando
Em mágoas, de quando em quando;
Nossos frágeis, flébeis braços
Estendidos aos espaços.
Nossos rins sem energias;
Nossas pernas doentias.
Nossos pés todos feridos
Nos cascalhos esquecidos
No chão dos ínvios caminhos
Atapetados de espinhos.
Mas, da ermida onde oramos,
Os horizontes fitamos;
E, unidas, nossas almas
Como veem floridas palmas
Nesses largos horizontes
Que dão halo às nossas frontes
Para que um dia possamos,
Sim, nós dois que nos amamos,
Subir, ao clarão de um dia,
Aos pés da Virgem Maria,
E receber os afagos
Dos seus lindos olhos magos,
E pedir-lhe, eternamente,
Com sentimento profundo,
Não se esquecer dessa gente
Que anda sem crença no mundo.