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1865–1927

Minha mãe

Juvêncio de Araújo Figueredo

Se me ensinaste a orar, Numa casinha branca, muito branca, Porque razão não hei de me lembrar Da tua alma tão franca,

Tão pura, tão leal, tão boa e tão formosa, Como se fosse, assim, uma pedra preciosa, Um rico talismã, um sagrado amuleto Que rolasse da Estrela da Manhã

Para dentro do meu peito? Se me ensinaste a orar, numa casinha branca Junto do mar que docemente orava Conosco, pelas tardes azuladas

Em que as praias iluminadas Pareciam de prata, e por onde chilreava A gaivota feliz, na largueza dos ares, Em liberdade,

Porque não hei de me lembrar de orar Com humildade, Sempre e sempre por ti, A Essa cuja imagem

Baixa à ermida aromal da minha grande fé, Cada vez mais graciosa e alvissareira Como a pomba que trouxe à Barca de Noé Um ramo de oliveira?

Quase sempre à tardinha, à hora do sol descer Às linhas sinuosas dos penhascos, Entre pompas de damascos, e trompas De alaridos de cores,

Gostávamos de ver O teu sublime olhar, ó minha mãe querida, Voltado à sideral, esplêndida paisagem Na qual tua alma via a encantadora Imagem

Da Senhora das Dores. E quantas flores A Ela pedias para a nossa vida! Mas não pedias só por nós, querida,

Ó minha mãe estremecida! — Também pedias Pelos demais filhos, Filhos de outras mulheres,

Que andassem, coitadinhos! pelos trilhos Escuros desta vida, onde Ceres Escasseia de dar mãos cheias do trigal, Ou para nosso bem, ou para nosso mal.

Se um barco, navegando a velas pandas, Entrava no mar-alto, em busca de outras bandas, Em que sobressalto teu coração se via, E se via tua alma impressionada!...

E a tua prece era então acompanhada Pela prece dos teus filhos, Na mesma estrada de soturnos trilhos, Para que o barco lograsse o marco

Desejado, por cima dessas vagas De tantas, tantas horas aziagas. Se um velhinho apontava no caminho, E chegava-se até nós,

Não havia quem risse do velhinho, Porque tu nos dizias: — Um dia chegará em que vocês, meus filhos, Hão de andar desse jeito...

E quem sabe? maltrapilhos... Pois ninguém conta o fim do seu destino Neste mundo imperfeito, Embora lhe bafeje um sol tão cristalino!

E ninguém ria, minha mãe, dos velhos, Pois ouvíamos bem os teus conselhos. Não querias que nós, os teus filhos queridos, Atirassem pedras ao vizinho,

E dizias, confiante, a cada instante: — “Quem faz mal ao seu vizinho Já vê o seu no caminho...” Não nos deixavas atirar pedradas

Às aves das estradas, Que muitas eram mães abençoadas; E outras, filhas estremecidas; E outras, noivas sonhadoras:

— Almas alegres e cantadoras. E não querias que os teus filhos nunca Negassem a água que nasceu p’ra todos; Nem tivessem, por certo, garra adunca

Diante do trigo que se espalha aos rodos, Quando o orvalho dos céus o amadurece E ele se torna em messe... E sempre nos dizias:

— “Não são nossos os dias, “Nem sabemos contá-los... “E quem nega será neste mundo negado, “Porque tudo que existe é uma cousa só,

“Seja a luz fulgurante, ou seja o próprio pó. “Desde os lírios dos vales “Às rosas do cercado; “Desde a violeta modesta

“Ao esplendor da floresta; “Desde os rios silenciosos “Aos oceanos tenebrosos; “Desde as areias das praias

“Às fúlgidas alfaias “Dos astros misteriosos; “Desde o inseto ao condor, “Seja em que lugar for;

“Na terra e nesses céus, onde haja luz ou pó. “Tudo, tudo que existe é uma cousa só: “É Deus! Unicamente a Natureza! É Deus!” Ora, se eu tive assim, no princípio da vida

Indefinida, Uns conselhos tão belos, E continuo a tê-los, Porque me vens olhar serenamente;

Porque me vens falar suavemente; E me vens abraçar veementemente... Se eu recebi de ti tão bonitos conselhos, Eis-me aqui de joelhos

E mãos postas, a orar... a orar... E orarei toda a vida Por ti, sempre por ti, ó minha mãe querida!

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