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1865–1927

Ingratidão

Juvêncio de Araújo Figueredo

Pelos olhos tristes que hoje vi passar Junto à minha porta, é que eu vim rezar... Pelos olhos tristes que já foram cheios De sonhos álacres e de galanteios.

Vendo-os, hoje, tristes como nunca os vi Por eles senti Uma tal tristeza, que me lembrei logo Do amor profundo do teu coração

Que é o vivo fogo, O perenal clarão Dos que sentem n’alma uma tristeza assim, Que não têm na vida um venturoso fim.

Vendo-os, hoje, tristes como nunca os vi, Por eles senti Toda a alma voltada para a mocidade Que tão longe vai,

Sem me ouvir o ai Que eu às vezes solto, cheio de saudade, Pois os meus cabelos já de neve são, Brancos como a neve que dos montes cai.

Triste de quem vê a mocidade longe... Veste-se, portanto, de burel de monge, E senta-se, cansado, Numa praia imensa, a fitar, coitado!

Um ocaso roxo, ou um luar velado, Ou um barco branco, que além se perde Na eterna ondulação das vagas do mar verde. Vendo-os, hoje, tristes como nunca os vi,

Por eles senti Coisas que nem sei!... Mas por fim das contas Pus-me a recordar Que esses olhos tristes, que hoje vi passar

São os que outrora me fizeram andar Seguidamente às tontas... Ah! tanto os queria, Tanto os adorava,

Que não se passava Um único dia, Que eu não fosse vê-los... Olhos que hoje são

Os meus pesadelos!... — Olhos meus, castanhos, Sois uns céus estranhos, Era o que eu dizia...

E não lhe estão só tristes esses olhos, não! Que tristeza tem a sua boca! Vejo Sua boca triste como nunca a vi! Nunca mais lhe dei um perfumoso beijo,

Nem jamais ouvi O seu trino de ouro, todo o seu cantar, Que me parecia O da cotovia

Quando tece o ninho na ramada agreste, Para aí noivar, Sob o azul celeste. Boca que já fora uma flor vermelha,

A mais fresca e bela, Que até mesmo a abelha Vinha muito vezes espojar-se nela! Mas, agora, como

Essa boca está! (Coitadinha dela!) Nem parece um gomo De laranja cravo, nem de tangerina, Nem de bergamota, nem de fruta alguma!

E os seus dentes eram de marfim, em suma. Numa casa branca, coberta de parras, Cercada de rosas e verdes salgueiros, Ouvindo o chiar das lindas cigarras,

Ouvindo o cantar dos belos coleiros, Ouvindo do mar as ondas saudosas, Ouvindo dos rios as águas maviosas, Em horas sem contas, eu sempre dizia:

— Espera por mim, até que, num dia De maio florido, o nosso noivado Encante em festanças todo este povoado... Serei todo teu, e minha serás...

Entretanto, depois de uma manhã de beijos, Saciante de desejo, E do meu coração fazer mil juramentos, Um barco me levou, velas pandas aos ventos...

E desse dia então (Há quantos anos!) Tem sido a minha vida um mar de desenganos. Mas, ó Virgem Senhora da Conceição, Devo rezar por esses olhos tristes

Que eu vi, e vistes, Ou pela minha ingratidão?

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