Por ora, os dias são lindos Pelo mar e céus infindos. Surgem cheios de esplendores. E são cobertos de flores.
São dias embalsamados De aromas purificados. Que rumor por sobre os ramos Onde trinam gaturamos!
Pelos bosques solitários Que gorjeios de canários! E brilha a água das fontes Desses campos, desses montes...
E há dulcíssimos afagos Na superfície dos lagos. Cobrem-se os lagos de brilhos De encantadores vidrilhos:
Às suas águas afluem Berilos que se diluem... Veem-se, através das folhagens, Chamalotes e miragens.
A luz, por sobre os caminhos, É feita de óleos e vinhos. E quando ela se derrama, A terra inteira se inflama.
Tudo canta a bizarria Dos bandolins da alegria. Tudo se acorda em divinos Acordes de violinos.
E há sons de anafis e harpas Pelo sopé das escarpas. E a tarde, a tarde é tão doce Como se de seda fosse.
Como se fosse das sedas Da ervagem das alamedas, Dos espinheiros floridos Juntos aos rios adormidos...
E vêm as noites formosas, Pespontadas de alvas rosas. E há uma carícia branda Em quem pelas noites anda...
Cada espírito parece De joelhos, numa prece. Deita-se a gente, no leito, De coração satisfeito.
Sonha a gente lindas cousas, Sem pensar nas frias lousas. É que de maio o céu vasto É de todos o mais casto.
É todo de luz serena, E tem pólen de açucena. E é todo cheio de encantos Como os altares dos santos.
E é todo um céu de carícias, E de inefáveis primícias. Lindo céu que, sobre as almas Se desfolha como as palmas.
Mas vai ficar no abandono Esse lindo céu de outono. Vão-se-lhe extinguir as folhas, Como do sabão as bolhas...
Virá o frio inverniço Para lhe apagar o viço. Hão de vir, em junho, os gelos, Com seus grandes pesadelos.
Virão os mordentes frios Da neve, cobrindo os rios... Virão as noites geladas Por essas longas estradas.
Virão as asas dos ventos Trazer trágicos lamentos. Virão as chuvas miúdas Arrancar da seara as mudas.
Virão enchentes de sobra, Em voltívolos de cobra. E é quando estarei bem triste, Pela ideia que me assiste:
— Calculo, na minha vila O frio que a lua destila. Pois quando há luar a gente Um frio dobrado sente.
E há, na vila, gente pobre Que não come e nem se cobre. Que não possui, no borralho, Uma lasca de carvalho.
E não come, coitadinha! Senão pirão de farinha. E só bebe, ardendo em mágoa, Um pouco de mel com água.
E tem o quarto em buracos, E as telhas em muitos cacos. Gente que retesa os braços E os pés, cheia de cansaços.
E é dessa gente, Senhora, Que eu me lembro a toda hora, Dessa que terá, em junho, Dos frios o testemunho.
Que terá dias medonhos, Apavorando-lhe os sonhos. Então, com benevolência, Venho pedir a clemência
Dos teus olhos adorados, Que vivem sempre molhados... Acolhe-a, ó Virgem Maria, Toda a noite, e todo o dia,
Com todo esse olhar tão terno, De forma que, nesse inverno, Sob o fulgor do teu nome, Que de estrelas se esculpiu,
Não haja quem sinta fome, Não haja quem sinta frio.
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