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1865–1927

Diálogo triste

Juvêncio de Araújo Figueredo

Ouve, Senhora, O que eu ouvi lá fora, No caminho brusco, pedregoso trilho, Da boca de um cego ao seu pequeno filho.

E o que este lhe dizia. Senhora, Dir-me-ás, depois, Se escutaste, um dia,

Um diálogo Análogo Ao desses dois, Sendo a um roubada toda a luz dos olhos,

E dados ao outro os mais cruéis escolhos... Diálogo triste. O cego: — De que cor é o sol, ó meu filhinho amigo,

O sol dos espaços? O filho: — É da cor do trigo Quando sazonado,

E à mó levado, Pelo qual a gente morre de cansaços, Numa eterna lida, Nesta acerba vida.

O cego: — E eu nunca pude lavorar o trigo; Tenho de comê-lo vindo de outra mão! Não há dor mais funda para um coração,

Não há dor mais funda, não há dor mais triste, Só na alma dum cego enormemente existe! O filho, à parte: — Chora a alma humana, quando encarcerada

Numa casa velha, sem janela aberta... O cego: — De que cor é a lua que no céu desperta, Que do céu espia?

De que cor é a lua? O filho: — É da cor da pura, branca eucaristia; Dir-se-ia a hóstia... E pelo azul flutua,

Vive a flutuar. Tendo por Altar A montanha verde onde eu vou brincar... O cego, em êxtase:

— Se é da cor da hóstia, que beleza, a lua! E, por certo, a terra é o seu florido Altar, Pois não há quem negue que Jesus encerra A sua alma em lótus a florir da terra.

O filho: — Ai! pobres dos homens se Jesus não fosse Para as suas almas um clarão tão doce. O cego:

— De que cor é o lírio que perfuma a toalha Da capela branca da Nossa Senhora, Dessa Mãe sublime que nos agasalha Como a luz da aurora?

O filho: — É da cor das almas dessas criancinhas Que o seu Filho adora como as ovelhinhas. O cego:

— Ao rebanho santo dessas ovelhinhas Que Jesus te chame com saudosa avena, E te queira, ó filho, no seu grande Aprisco, Onde nunca, nunca te verás em risco,

Antes de alma aberta como uma açucena. O filho: — Que a tua alma veja eu pastoreando assim. O cego:

— De que cor é o céu, dize-me, criança. O filho: — É da cor mais linda do Arco da Aliança Que jamais tem fim;

Desse para onde as nossas ânsias vão, Para onde vão as aflitivas ânsias, Asas a bater... O cego:

— Mas as minhas, filho, hão de se perder Sem consolação, Por essas distâncias... O filho:

— Não te lembres disso, ó meu querido pai; Não se perde a areia quanto mais o ai... O cego: — De que cor é a vaga, quando está dormindo

Ao sopé da terra? Dize, meu amor. O filho: — É da linda cor Que lhe empresta a terra, sol a sol tão lindo;

É da cor da esperança... Mas, do mar, às vezes, num cruel momento, Essa cor se perde... O cego:

— Ah! nem sempre é verde?! O filho: — Nem sempre é verde, se a fustiga o vento. O cego:

— Dessa forma, filho, no meu pensamento, Muda a cor a esperança... (ouvindo o filho chorar) — És ainda criança,

E já sofres tanto por sofrer me veres, Quanto mais se um dia, quando eu morrer, souberes Que não tive graças para t’as deixar... Choras, filho amado? Para que chorar...

O filho: — Deixa que eu no pranto lave as minhas mágoas... Desde pequenino dentro da alma trago-as. O cego, acariciando o filho:

— E essa noite fria, cheia de neblinas, Sem a luz dos astros, sem a luz do luar, Toda amortalhada de mortalhas finas; Dessa noite fria, amargurada noite,

Dize, meu filhinho, se eu conheço a cor... O filho: — É da cor profunda das melancolias Da alma que soluça, vive a soluçar,

Como se ela fosse um revoltoso mar, Pelas invernias, De um vento medonho no terrível açoite, Que estremece os próprios escarcéus e abrolhos...

O cego: — Já eu sei, meu filho, de que cor é a noite, Pois a tenho dentro dos meus pobres olhos.

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