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1865–1927

Diálogo no lar

Juvêncio de Araújo Figueredo

— Para o nosso filho que vem de nascer, Mostra-me a camisa que fizeste, Amada. — Ei-la; — é rosa e azul, toda perfumada, E eu pedi à aurora para ma fazer.

— Para a cabecinha desse nosso filho Quem faria, Amada, a pequenina touca? — Fê-la, meu querido, o sacrossanto brilho Das lhamas dos beijos da minha alma louca.

— Para esse pimpolho que, daqui a um ano, Andará nas praias, quais os sapatinhos? — Ora, que pergunta! Pois serão de pano?! Dar-mos-á a pluma dos cheirosos ninhos.

— A esse que, sorrindo, veio ver o mundo, Que berço daremos, para o embalançar? — Dar-lhe-emos a asa de um amor profundo, Vasto como o espaço, e como o verde mar.

— Para esse cordeiro que estes nossos olhos Hão de apascentar, que aprisco daremos? — Dar-lhe-emos um, entre os cheirosos molhos Das tulipas virgens, que nos sonhos vemos.

— E esses seus lençóis onde foram urdidos, Eles, defumados à alfazema e à malva? — Nos áureos teares, só por nós conhecidos, E quem os urdiu foi a Estrela-d’alva.

— Com que banharemos o nosso filhinho Que nos trouxe à alma o clarão do dia? — Com perfumes doces, do mais claro vinho Dos vinhedos de ouro da nossa alegria.

— Como todo filho de gente ricaça, Quem pudesse vê-lo com guizos na mão. — Ora, não precisa: para nos dar graça, Basta que chocalhe com meu coração.

— A Virgem Senhora, que do Altar te escuta, Que o destine ao Bem, que lhe dê bom fado. — Que lhe dê uma alma límpida, impoluta, E lhe dê dos sonhos todo o sol dourado.

— A Virgem Senhora, Flâmula da Glória, Que lhe dê no mundo o mais feliz destino. — Que lhe torne a vida eternamente flórea; E o seu peito um cálice de licor divino.

— Que lhe guie os passos neste mundo insano, Onde se renega a própria luz do Amor. — Que lhe dê na vida um coração em flor, Sem os ventos frios do fatal engano.

— Ana, que olhos tristes os do nosso filho! Vejo-lhe nos olhos uma grande mágoa... — São iguais aos teus, que através de um brilho Vago... muito vago... vivem rasos de água.

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