Ei-la, vai passando. Que velhinha asseada, De bandós de neve, e fulgurosos brincos! E ainda há pouco estava toda fatigada A colher cachopas de algodão nos zincos
Estendidos junto aos roseirais da estrada! Vai passando alegre, sem temer barrancos, Sem temer as pedras da subida agreste. Os seus pés estalam dentro dos tamancos;
E se agita ao vento, numa cor celeste, Sua saia nova, de babados brancos. Vai passando alegre, tendo nos olhares, Doçuras de arminho, de veludo e rosas,
Que trocou na vida, pelos seus pesares, Pelas mágoas roxas, mais que tenebrosas, Quando norteada por outros pensares. A princípio, o seu coração chorando,
Muitas ânsias teve, atravessado a lanças Pelo seu filhinho que morrera quando Toda a vida lhe era um marulhar de esperanças Que recordam pombos pelo ar voando.
Só pensava, é justo, na vida terrena Que do berço vai à sepultura, e... finda. Nunca ouviu pastor tocador de avena, A chamar ovelhas para a vida infinda,
Onde não se chora, nem se sente pena. Mas, por uma feita, bem deitada estava Num colchão de musgo com lençóis de linho Quando, ao ver alguém que no quarto entrava,
Viu-se beijocada pelo seu filhinho Que lhe disse coisas que ela ignorava. Desde então lembrou-se de que tudo quanto Neste mundo existe (menos a maldade),
Tem de Deus, que é Pai, o bafejo santo... E quem sabe lá se, na mocidade, Lhe daria, o filho, amargurado pranto?... Ei-la, vai passando, como sempre passa,
Toda uma beleza de encantar a gente. Vai orar na ermida, e receber a graça Que Maria dá ao coração do crente Que, ao seu, no mundo, com fervor se abraça.
Cookies on Poetry Cove