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1865–1927

Antífonas

Juvêncio de Araújo Figueredo

Encheram-se as velas brancas De rajadas as mais francas. Partiram, numa enfiada, As canoas da enseada.

Foram-se todas às vagas, Sem tristezas aziagas. Sem negros pressentimentos De virem medonhos ventos.

É que o sol todo floria, De rosas e pedraria A verde encosta dos montes, E afagava os horizontes.

Sobre o alto Cambirela Havia luz amarela. E havia nas suas fraldas Liquescentes esmeraldas;

E nas suas cachoeiras, Claridades de poncheiras E muita luz de berilos Pelos seus rios tranquilos.

E além, fulgurantes listas De safiras e ametistas! E sobre as folhas do mangue Derrames de vivo sangue.

E sobre a Ilha das Vinhas Gaivotas e andorinhas. E um forte perfume de erva, Que as fibras do peito enerva,

Derramava-se por tudo, Como em mantos de veludo. As Tipitingas sorriam Às ondinas que se abriam...

Ia-lhes um sorriso brando Divinamente embalando... E de lado a lado, as casas Eram brancas como as asas

Das garças, quando paradas Pelas praias perfumadas. E agora a noite é um manto De veludilho o mais santo.

Desceu crivada de estrelas Que a gente se alegra ao vê-las. Como o teu manto, Senhora De prata a noite se enflora,

Tal qual teu manto sagrado Todo o céu é salpicado De encantadores pórfiros: — Urnas dos nossos suspiros;

Segredos das nossas ânsias Que se vão pelas distâncias. Em procura de refúgios, Bem distantes dos efúgios;

Bem distantes dos insanos Tormentos e desenganos, Dos quais o mundo se alastra Numa tortura de adastra.

E como desceu a noite Sem um gemido de açoite, Do vento no mar luzindo, No mar que se vê tão lindo!

Permite, Virgem Maria, Que não venha à calmaria Das ondas um vento solto, E o mar se torne revolto;

Ou se torne o mar bem como Um leão cheio de assomo... Que o mar se conserve ameno Como o olhar do Nazareno.

E por esses arredores Fiquem bem os pescadores, Lançando ao mar as braçadas Das suas redes talhadas;

E cantem, junto às canoas, Seus ditirambos e loas, Que são, à luz das estrelas, As antífonas mais belas...

E que tu, Virgem Maria, Plena de graça e alegria, Possas ouvi-los cantar, Do largo espaço sem fim,

Onde vives a viajar No teu barco de marfim.

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