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1865–1927

Almas simples

Juvêncio de Araújo Figueredo

Depois de encher a manjedoura De palha loura Que era a ração da sua vaca baia, Lindo animal de saboroso leite

E pelo luzidio Como se fosse de veludo e azeite, A tia Rosa endireitou a saia E subiu o caminho da praia.

O alto sino da ermida repicara, Enchendo de sons d’ouro a tarde clara. Viam-se além, na curva das montanhas, Ondulações estranhas,

Tonalidades singulares, Pinceladas de sangue, e roseirais em flor; E púrpuras e sedas, rendas e franjas Nas alamedas...

A tarde era um primor! Pintalgavam-se de ouro as primeiras laranjas. E de longe chegava a música das harpas Misteriosas de um rio cristalino.

Aberto nas escarpas... Já lá em cima, no adro, muita gente Espera a novena, alegremente. E que novena!

Dentre as lindas morenas do lugar, Nossa Senhora, que era a mais morena Tinha uns encantos fluídicos no olhar!... Para as velhinhas.

Não era imagem feita por ninguém, A da Nossa Senhora! Que olhares infindos! Que boca linda! Que cabelos lindos!

E que frescura nas linhas Das suas mãos piedosas, Feitas talvez de pétalas de rosas Orvalhadas de luz!

Não era imagem feita por ninguém, A da Mãe de Jesus! Certo baixara da luz clara De um divino luar, ou subisse do mar...

E eu, que adoro as velhinhas do lugar Onde nasci e vivo há tantos anos, Afirmava também: — Não era imagem feita por ninguém.

E para que lançar uns desenganos Nas almas simples das velhinhas? Não! Pela última vez o sino, ao repicar Encheu de sons de ouro o azul do ar.

E a lua de marfim Bruxuleou No azul que parecia de cetim... No belo altar, no florescido altar,

A luz sagrada do piedoso olhar Da Imagem de Maria, parecia Outro luar... Porém mais doce, e muito mais cheiroso,

E mavioso. E a meiga Imagem se apresentava Entre brancos jasmins e crisântemos. Como eu me lembro bem dessa noite sublime

Em que toda essa gente Começara a rezar, alegremente. Sem os laivos do crime! De joelhos em terra, essa gente rezava:

— À Virgem Mãe dos corações aflitos, oremos! — Àquela que nos ouve os ais e os gritos, oremos!

— Àquela que, nas revoltas águas, É a lavandeira que nos lava as mágoas, oremos! — Àquela que nos dá, no seu regaço,

Travesseiros cheirosos ao cansaço, oremos! — Àquela que, puríssima, compreende as nossas ânsias, por demais austeras,

oremos! — Àquela que até mesmo as próprias feras defende, oremos! — À que não deixa que dos próprios ninhos

caiam com frio os tenros passarinhos, oremos! — Àquela que se lembra do jumento e da meiga vaquinha, que se encheram de eterno sentimento, na hora em que nasceu Jesus, o amado

filho do seu amor, seja o nome louvado no maior esplendor! E logo que a novena se acabou E essa gente se levantou,

À Rosa perguntei: Por quem oraste, Ó querida velhinha? “— Orei... orei... cheia de fé, orei

Pela minha vaquinha Que ficou na manjedoura Tesourando a palha loura”. — E por quem oraste, Armanda,

Que vieste da outra banda? —“Orei pelo meu burrico “Que, se morre, morta fico”. — Aninhas, por quem oraste,

Tu que aflita te ajoelhaste? — “Orei, de alma ardendo em brasa, Pelo meu galo dourado, Relógio da minha casa,

Que me desperta, coitado! Com sua voz bem cantada, Às quatro da madrugada” — E por quem oraste, Zefa?

— “Pela contínua tarefa De subir, dias inteiros, Outeiros e mais outeiros, Carregando lenha aos ombros,

Sem temer tantos escombros”. — Vicença, por quem oraste, Tu que os olhos levantaste Dos céus à doce pureza?

“Orei Pela profunda tristeza, Em que me deixou um noivado; Pois percorro a vida inteira

Sem ter alguém ao meu lado; E nem sei se sou viúva, Se sou casada, ou solteira”. — “E eu orei, disse Maria,

Pelos que andam no alto mar, Em noites de ventania, Com saudades do seu lar”. — “E eu orei, disse Florença,

Por tudo quanto é doença”. E a meiga e formosa Alice Divinamente me disse: — “Eu orei pelos que choram,

E nas ânsias se apavoram...” — E tu, poeta? (perguntaram As que dessa forma oraram): — Por quem oraste, de palmas

Das mãos unidas ao peito? — “Orei, muito satisfeito, Pela paz das nossas almas”.

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