Que lindas rendas faz a saudosa rendeira,
Que horas passa sentada ao correr do portal,
De onde escuta a carriça a chilrear na lareira,
E o canário a chilrear no flóreo laranjal!
Aprecio-lhe o gosto e a sublime maneira
Com que faz tanta renda, assim, para o enxoval.
Vai casar-se na ermida alegre da ladeira,
E fez, duma camisa, um lírio original.
No momento em que a vi, a tarde feiticeira
Era uns veios de luz piedosa, espiritual...
E chegava da pesca uma leve baleeira.
Houve, então, um rumor de beijos no quintal...
E em cada humilde e bom olhar dessa rendeira
Cantava a rima azul de um sonho virginal.