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1865–1927

A meu pai

Juvêncio de Araújo Figueredo

Como meu pai morresse Por uma noite assim, de claros alabastros Transformados em lâmpadas suspensas, (Tais eram os atros

Nas regiões imensas) Aos céus ergo uma prece. E procuro indagar Do destino feliz, ou infeliz da sua alma,

Que, ao lado da alegria, Tantas horas passara a soluçar; E, das horas de calma. Tantas horas passara a derramar

Gotas de pranto, no mundo vário, Iguais às negras contas de um rosário. Do destino feliz ou infeliz da sua alma Que às vezes era calma

Como uma fonte aberta entre montanhas; E, às vezes, parecia Um mar batido pelos vendavais, Vindos não sei de que fantásticas entranhas,

Só tu, Virgem Maria, Umas notícias poderás me dar Porque tu, afinal, Virgem Maria, Sempre andaste no Mundo, e continuarás

A andar, resplandecente Para encher de consolo o coração da gente. Quando meu pai morreu, toda a sua cabeça Era tão branca como a neve

Que cai de leve Sobre a floresta espessa, Ou sobre o campo; ou sobre o rio, ou sobre o lago, Num dia pressago

De chuvas tristes e continuadas. Em que as estradas, e os terreiros Barrentos Ficam da cor do sangue nas batalhas,

Quando os guerreiros Fazem do próprio sangue as trágicas mortalhas Para os seus corpos pestilentos. Quando meu pai morreu, já lhe haviam passado

Pelos curvados ombros. Temeridades de assombros De um viver atormentado: E houvera ele galgado

Um calvário de escombros; E chorado, talvez, como Jó, o lendário Que, recolhido a um canto, Solitário, Contava e recontava as gotas do seu pranto,

Como se fossem contas de um rosário. E ele, triste, me disse, à hora extrema da vida: — “Meu filho, o céu azul é uma Casa Infinita, Com Moradas nos sóis e nas brancas estrelas...

Mas não sei que será desta minh’alma aflita, Que, na terra, deixou de olhá-las e compreendê-las, Pela grande amargura em que viveu metida. Entretanto, confiante, irei por todas essas

Lonjuras siderais, dulcíssimas, serenas... Abrirei minha crença às divinas promessas, Só levando por ti a alma cheia de penas...” Amortalhei-lhe o corpo, e deitei-o de costas,

Num florido caixão, com os pés para a rua; E beijei-lhe, a chorar, as mãos geladas, postas Em cruz por sobre o peito. A essa hora a lua

Parecia, no azul bendito das Alturas, A porta de marfim e prata de um sacrário. Absorto, então, fiquei, recordando as doçuras Do teu Filho, Maria,

De cima do Calvário, Que noite e dia Conta, seguido, as contas do rosário Do nosso pranto amargo, e dos nossos pesares,

E as nossas grandes mágoas Que são mais do que as águas Dos rios e dos mares... E, desde essa hora, penso

Na Felicidade da alma dos quem tanto Derramaram por sobre o mundo triste e vário, Tantas gotas de pranto, Como se fossem as contas de um rosário Imenso!...

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