Que luar! Que lua branca Rolando no espaço, franca!... Mas a luz que ela derrama Não é forte, não tem chama.
Não é luz de labaredas, Como a que, nas alamedas, Nos campos, no mar, nos rios Acende o sol dos estios.
É suave, branda, morna, E em carícias se contorna; Tem inefáveis doçuras Nas suas castas alvuras;
Tem dolências e dolências Pelas suas florescências, Floresce todos os meses Sem se importar dos reveses...
Rola... rola... nos espaços, Sem fadigas, sem cansaços; Ora surge, à nossa vista, Como uma pedra ametista.
Ora surge, cristalina, Como anel de pedra fina. E, crescendo, lembra um barco Com suas linhas em arco.
Se está virada p’ra cima, O bom tempo se aproxima; Se está virada, em contrário, O tempo nos chega vário;
E depois fica redonda Como o alvo pão da monda. Pelo céu de tons de malva Parece, às vezes, a salva,
Onde, há séculos remotos, Alguém, cheia de atroz votos, Expôs, num festim profano, O sangue de um ser humano.
É quando ela se enrubesce, E sanguínea nos parece. Mas, outras vezes, a lua Muito doce, se habitua,
Na sua rondagem franca, A parecer cera branca, E nesse estado, risonho Que eu vejo-a sempre no sonho...
Ontem, pela madrugada, Eu vi a lua velada... Olhei a distantemente, E ela me chamou, contente.
Abriu-se em portas, aos pares, E lhe vi todos os lares. Julgando-a toda de neve, Ei-la de pluma, a mais leve...
Era leve como a pluma Da garça, e bem como a espuma Do mar, quando o mar soluça, E na praia se debruça.
Nunca vi solar mais lindo Nesse céu azul, infindo. E a lua me disse: — “Entra, E de joelhos te concentra...”
Entrei, e fiquei de joelhos Ante aqueles bons conselhos. Era a lua um corpo vivo, Espiritual, mas cativo...
Ouvi-lhe as suaves falas, Pronunciadas em opalas, E em perfumes de alvas rosas Cada vez mais perfumosas.
Mas antes de entrar na lua Deixei fora o pó da rua; Deixei no mundo, na terra, A miséria que ela encerra,
Pois tinha de entrar bem puro, Bem lavado, e bem seguro De encontrar, lá dentro dela, A vida mais santa e bela...
E com efeito lá dentro, Dessa lua no alvo centro, Encontrei, em flébeis ninhos De delicados arminhos,
Muitas crianças felizes, Sem as fundas cicatrizes Dos sofrimentos do mundo, Que é dos mais o mais profundo,
Perdido pelas distâncias, Na negra estrada das ânsias. E a lua me disse, ainda, Cada vez mais doce e linda:
— Quando cresço, quando cresço, À terra tristonha desço Os meus fluídos... Mas, no entanto, Quantas mães cheias de pranto,
Dizem de mim tantas cousas! Se algum dia, para as lousas, Levei-lhes os filhos?! Quando? E se veem os filhos chorando,
Também dizem: — “Foi a lua, Que viu as fraldas na rua...” E a alva lua ainda me disse, Toda cheia de meiguice:
— As criancinhas que morrem Lá embaixo, se socorrem Da minha força atrativa, Forte, veemente, emotiva...
Eu mesma é que vou buscá-las, Para aqui agasalhá-las, E dar-lhes, no céu divino, O farol do seu destino,
Abençoado por Aquela Bendita e serena Estrela, Que aqui vem todos os dias, Vestida de pedrarias;
Que aqui vem, dentro de um raio De encantos, no mês de maio, Trazer-lhes um pão de trigo, Água fresca, e um manto amigo.
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