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1822–1882

CANTO XXXIII

José Pedro Xavier Pinheiro

Do fero cevo os lábios desprendendo, Na coma o pecador os enxugava Desse crânio, a que estava atrás roendo. “Queres de infanda mágoa” — começava —

Renove a dor, que, só pensando a mente, Antes que falte, o coração me agrava. “Mas se a voz minha deve ser semente, Que ao traidor, que eu devoro a infâmia brote.

Falar, chorar, verás conjuntamente. “Não sei quem sejas, não sei como note Tua presença aqui, por Florentino Te ouvindo a língua, é força que te adote.

“Saber deves que fui Conde Ugolino, Que Arcebispo Rogério aquele há sido: Direi qual nos juntou cruel destino. “Contar não hei mister como iludido

Por minha confiança, em cárcer posto. Fui morto por maldade deste infido. “Não conheces, porém, que atroz desgosto O meu fim precedera: atenção presta,

Quanto ofendido fui verás exposto. “Por vezes da prisão por breve fresta, — após o meu tormento, Que há de a outros ainda ser funesta

“Brilhava a lua em pleno crescimento, Quando o véu do futuro horrível sonho Rasgou, do exício meu pressentimento. “Este, como senhor, então suponho

Ao monte, que ver Lucca a Pisa obstava Lobo e pequenos seus correr medonho. “Magros cães, destros, feros açulava Dos Galandis, Sismondis e Lanfrancos

A companha, que à frente cavalgava. “Em breve o pai e os filhos, lassos, mancos, Já dos famintos galgos mal feridos, Dar pareciam últimos arrancos.

“Desperto ao primo alvor; dos meus queridos Filhos que eram comigo, choro soa: Pedem pão, stando ainda adormecidos. “És cruel, se a tua alma não magoa

O prenúncio da dor, que me aguardava: Se não choras, que pena há que te doa? “Despertaram; e a hora já chegava Em que alimento escasso nos traziam:

O sonho a cada qual nos aterrava. “Da horrível torre à porta então se ouviam Martelos cravejar: eu mudo e quedo Nos filhos encarei, que esmoreciam.

“Não chorava; era o peito qual penedo. Choravam eles, e Anselmuccio disse: Assim nos olhas, pai? Do que hás tu medo?” “Nem lágrimas, nem voz dei, que se ouvisse,

No dia e noite, que seguiu-se lenta, Até que ao mundo novo sol surgisse. “Quando a luz inda escassa se apresenta No doloroso carcer, meu semblante

Nos quatro rostos seus se representa. “Mordi-me as mãos de angústia delirante. Eles, cuidando ser a fome o efeito, De súbito e com gesto suplicante,

“Disseram: “Menos mal nos será feito Nutrindo-te de nós, pai; nos vestiste Desta carne: ora sirva em teu proveito”. “Contendo-me, evitei lance mais triste.

Em silêncio dois dias se passaram... Ah! por que, terra esquiva, não te abriste? “Do quarto dia os lumes clarearam: Gaddo caiu-me aos pés desfalecido:

“Pai me acode!” os seus lábios murmuraram. “Morreu; e, qual me vês, eu vi, perdido O sizo, os três, ao quinto e ao sexto dia, Um por um se extinguir exinanido.

“Apalpando os busquei — cego os não via Dois dias, os seus nomes repetindo: Da fome mais que a dor, pôde a agonia”. Calou-se e os torvos olhos retorquindo,

Como de antes cravou no crânio os dentes E os ossos, qual mastim, foi destruindo. Ah! Pisa, opróbrio aos povos residentes Na bela terra, onde o si ressona!

Pois te não vêm punir vizinhas gentes. Presto a Capraia mova-se e a Gorgona Do Arno à foz, entupindo-lhe a saída Teu povo assim pereça, que se entona.

E se foi a Ugolino atribuída De entregar teus castelos à maldade, Por que à prole em tal cruz tirar a vida? Tebas moderna! Pela tenra idade

Ugoccione e Briga tá insontes eram E os irmãos, em que usaste a feridade. Seguindo além, os olhos se of’receram Outros, que em gelo têm duro tormento:

Destes os rostos para trás penderam. Lhes causa o pranto ao pranto impedimento; E a dor, que desafogo em vão procura, Lhes cresce, recalcada, o sofrimento.

As lágrimas coalhando em neve dura Formam nos olhos seus vítrea viseira, E todo o espaço interior se obtura. Conquanto quase a faculdade inteira

De sentir no meu rosto se embotasse Dês que era nessa perenal geleira, Cuidei que um sopro me tocara a face. “Do que este sopro” — inquiro — “se origina?

Se aqui não há vapor, donde ele nasce?” E o Mestre: “Irás onde a resposta di’na Os teus olhos darão; e ali chegando O que virem do sopro a causa ensina”.

Dos tristes padecentes um gritando, Nos disse: “Almas cruéis, almas danadas (Pois que no extremo abismo estais penando) “Tirai-me aos olhos gélidas camadas,

Por desafogo dar-me ao peito aflito, Antes de eu ter as lágrimas coalhadas”. “Se o lenitivo queres, que tens dito, Teu nome diz: se não me desobrigo,

Desça eu do gelo ao pelágio maldito”. Respondeu logo: “Eu sou frei Alberigo, Pelos pomos famoso do mau horto: Aqui recebo tâmara por figo”.

“Oh!” — disse — “porventura tu stás morto?” “Não sei como é meu corpo lá no mundo”, Tornou “e se vivendo tem conforto. “Este condão possui sem ter segundo

Ptoloméia: aqui star alma é frequente Antes que a mande Atropos ao profundo. “E por que mais de grado e prontamente Estas vidradas lágrimas romovas,

Sabe que apenas de traição a mente “Inquina-se, como eu, por funções novas Passa o corpo a demônio, que o governa Té completar da vida últimas provas:

“Rui a alma, entanto, à lôbrega cisterna, Talvez na terra folgue o corpo ledo, Cuja sombra após mim trêmula inverna. “Se és recém-vindo, sabe que esse tredo

É Branca d’Ória: há prolongados anos Jaz enleado no infernal enredo”. “Este é” tornei “mais um dos teus enganos: Desfruta alegre Branca d’Ória a vida

E come e bebe e dorme e veste panos”. “Dos Malebranche em cava denegrida, Não era” disse ainda “em pez viscoso Alma de Miguel Zanche submergida,

“E um demônio esse infame criminoso Deixou no corpo; o mesmo um seu parente, Que de traição foi sócio proveitoso. “Das mãos auxílio presta ora clemente,

Me abrindo os olhos!” Tal não fiz; que errara Com tal vilão me havendo cortesmente. Ah! Genoveses! raça impura e avara, Que nos costumes tem mancha tamanha!

Quem da face da terra vos lançara! Junto ao pior esp’rito da Romanha De entre vós um traidor vi tanto imundo, Que a alma sua em Cocito já se banha,

Enquanto o corpo vida finge ao mundo.

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