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1822–1882

CANTO XXXIII

José Pedro Xavier Pinheiro

Deus, venerunt gentes, alternando, Em coros dois, suave melodia Cantam as ninfas, pranto derramando. E Beatriz, a suspirar, ouvia

Tão dorida, que pouco mais, outrora Junto da Cruz mostrara-se Maria. Quando lhe coube alçar a voz canora, Entre as formosas virgens posta em pé,

Com santo ardor, que as faces lhe colora: “Modicum et non videbitis me, Caras irmãs, et iterum” — tornava — “Modicum et vos videbitis me”.

Depois, antes de si as colocava, E a mim e a dama e ao Vate, que restara, Pra seguir os seus passos acenava. Ia assim: que ela houvesse eu não julgara

O seu décimo passo em terra posto, Eis sua vista na minha se depara. — “Mais perto” — disse com sereno rosto — “Caminha; pois falar quero contigo,

E o leves a me ouvir star bem disposto.” — Beatriz, logo em tendo-me contigo, — “Por que” — prossegue —“irmão não hás querido Me inquirir, quando vens assim comigo?” —

Fiquei, como o que o espírito aturdido, Ao seu superior falando sente, E apenas balbucia confundido. Falei, com voz cortada, reverente:

— “Quanto hei mister sabeis mui bem, senhora, O que seja em prol meu sabeis prudente.” — — “De temor e vergonha desde agora” — Tornou — “isento sê, stando ao meu lado:

Como quem sonha as vozes não demora! “A caixa, que a serpente há devastado, Já foi: de Deus castigo aos criminosos Ser não pode por sopa obliterada.

“Não faltarão herdeiros cuidadosos Da águia, que ao carro as suas plumas dera, E o tornou monstro e presa aos cobiçosos. “Vejo o porvir e a voz minha assevera

O que propínquos astros anunciam: Nada os estorva, nem seu curso altera. “Um prenunciam, Que o céu manda a punir a depravada

E o gigante: ambos juntos delinquiam. “A narração, talvez, de treva inçada, Como as do Esfinge e Têmis não a entendas, Por parecer-te ao spírito enleada.

“Farão, porém, os fatos que a compreendas; Quais Náiades, darão do enigma a chave, Sem dano ao trigo, ao gado, sem contendas “Que na memória tua isto se grave:

Como te falo, assim o ensina aos vivos Que se afanam em buscar morte insuave. “Lembra os que hás visto feitos aflitivos. Da árvore o stado narra, que te espanta,

Quanto sofreu assaltos dois esquivos. “Quem despoja ou mutila a sacra planta Blasfema a Deus, de fato o ofende ousado: Para o seu uso só a criou santa.

“Sperou a primeira alma, que há provado Do seu fruto, anos mil cinco gemendo Por quem penas em si deu do pecado. “Tua alma dorme, se não stá sabendo

A causa singular, que a planta há feito Tão alta, o cimo tal largura tendo. “Se da água d’Elsa não trouxesse o efeito O teu vão cogitar sobre essa mente,

Que escurece, qual sangue à amora o aspeito “Fora o que eu disse já suficiente Para o justo preceito compreenderes, Que Deus há posto sobre o tronco ingente.

“Como te ofusca a luz dos meus dizeres. Porque de pedra tens o entendimento, Que, afeito à culpa, não permite veres, “Uma imagem te guarde o pensamento,

Como palma ao bordão junta, voltando, Peregrino, em remédio ao esquecimento.” — — “No cérebro, qual cera conservando” — Tornei — “a marca do sinete impresso,

Vosso verbo se irá perpetuando. “Mas por que se sublima em tanto excesso Vossa palavra, sempre apetecida, Que, alcançá-la tentando, desfaleço?” —

— “Por veres” — diz — “que escola pervertida, Hás cursado, o que, pois, sua doutrina Ao verbo meu não pode ser erguida; “Pois a vereda vossa da divina

É tão remota, quanto está distante Da terra o céu que ao alto mais se empina” — — “Não me lembro” — respondo à excelsa amante “De ter-me às vossas leis nunca esquivado:

Não diz-mo a consciência vigilante.” — — “Possível é que estejas olvidado” — Respondeu-me a sorrir — “tem na lembrança Que inda há pouco, hás do Lete água tragado,

“E se de flama o fumo dá fiança, Que o teu querer no erro andou perdido Demonstra o olvido teu com segurança. “Será da minha voz claro o sentido,

Por que mais facilmente de ora avante Da rude mente seja percebido.” — Mais demorado, entanto, e coruscante No círc’lo entrava o sol do meio-dia,

Como os climas diversos variante, Quando as damas, bem como astuto espia, Que, precedendo a tropa, de andar cessa, Se acaso novidade se anuncia,

Paravam, ao sair da sombra espessa, Qual aos frios arroios murmurantes Dos Alpes bosque verde-negro of’reça. Julguei ver Tigre e Eufrates não distantes

Brotar da mesma fonte juntamente E separar-se lentos, quais amantes. — “Ó glória! ó esplendor da humana gente! Qual é, dizei-me, essa água, bipartida

Depois de proceder de uma nascente?” — — “Ser-te deve a pergunta respondida Por Matilde” — tornou-me então, falando Em tom de quem por falta fosse arguida,

A dama disse: — “Tudo lhe explicando Já stive: não podia haver efeito Do Letes, a lembrança lhe apagando.” — E falou Beatriz: — “Pode ter feito

Escura a mente sua o mor cuidado, Que o entendimento às vezes torna estreito. “Eis Eunoé, que o curso há derivado: Conduze-o e, como sabes, o imergindo,

Seu coração alenta desmaiado.” — Como alma nobre, ao bem nunca fugindo, Faz do estranho querer própria vontade, Quando um simples sinal o está pedindo,

A gentil dama, usando alta bondade, Guiou-me e a Estácio disse, que atendia: — “Segue-o também” — com garbo e majestade Esse doce licor, que não sacia,

Eu cantara, leitor, se desse ensejo Da página uma parte inda vazia. Mas, porque todas ocupadas vejo E ao meu segundo Cântico aplicadas

Da arte o freio me tolhe esse desejo. Como de planta as folhas renovadas Mais frescas na hástea mostram-se, mais belas, Puro saí das águas consagradas

Pronto a me alar às lúcidas estrelas.

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