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1822–1882

CANTO XXXII

José Pedro Xavier Pinheiro

Com tão sôfregos olhos saciava A sede, em que anos dez eu me incendia, Que aos mais sentidos toda a ação cessava. Quase murada a vista se imergia

No santo riso ao mais indiferente, E nos laços de outrora me prendia. Desse êxtase arrancou-me de repente A voz das santas, que da esquerda soa:

— “Demais contemplativa tens a mente!” — Os ofuscados olhos me nevoa Torvação semelhante ao vivo efeito, Que do sol causa a face em quem fitou-a.

Mas quando à pouco luz estive afeito (Pouca em confronto ao lume deslumbrante, Que por força deixara e a meu despeito), Vi que à destra volvia o triunfante

Exército celeste à frente estando Os candelabros sete e o sol flamante. Qual hoste a se salvar broquéis alçando, Se volta, e co’a bandeira não prossegue

Senão mudada a direção, girando; A celeste milícia avante segue, Na marcha procedendo desfilava Antes que o santo carro a volver chegue.

Cada coréia as rodas escoltava, E o Grifo a carga santa removia Sem parecer que as penas agitava. Quem pelo rio me arrastado havia,

Estácio e eu a roda acompanhamos, Que por arco menor volta fazia. Na alta floresta caminhando vamos, Erma por culpa da que a serpe ouvira:

Pelo cântico os passos regulamos. Andáramos espaço que medira Uma seta três vezes disparada: Desceu Beatriz do carro, em que eu a vira.

“Adam!” — disse em murmúrio a grei sagrada, Todos depois uma árvore cercaram, De folhas e de flores despojada. Tanto aos lados seus ramos se alargaram,

Quanto erguiam-se ao céu: como portento índios nas selvas suas os mostrariam. “Ó Grifo! Glória a ti! De culpa isento, Não provaste do lenho doce ao gosto,

Que tanta dor causou, tão cru tormento!” — Daquele tronco excelso em torno posto, Diz o préstito; e o Grifo lhe contesta: — “Assim justiça é sempre no seu posto.” —

E ao carro que tirara na floresta, Voltou-se e o conduziu ao tronco anoso: Dele foi parte, a ele atado resta. Quando o astro rebrilha poderoso,

Juntando os seus clarões aos que desprende, Depois do Peixe o signo luminoso, Brotando as plantas cada qual resplende De esmalte novo, e ainda de outra estrela

Abaixo os seus frisões o sol não prende: Súbito assim refloresceu aquela Árvore nua, gradações formando Entre rosa e violeta em cópia bela.

Então de um hino as notas escutando, Quais nunca sobre a terra se cantaram, Não pude resistir a som tão brando. Se eu narrasse como olhos se fecharam

De Argo impiedosos, de Sírius ao conto Que o seu nímio velar caro pagaram, Pintor, tirara ao natural e em ponto O sono em que engolfei-me docemente;

Mas faça-o quem nessa arte forma pronto! Passo ao momento em que espertou-se a mente: Fulgor ao sono intenso o véu rompia, — “Eia! que fazes?” — ouço incontinênti.

Quais vendo que de flores se cobria O linho cujo pomo apetecido Na boda eterna os anjos extasia, João, Pedro e Tiago ao seu sentido,

Depois da prostração à voz tornaram, Que sono inda maior tinha vencido, E a companhia decrescida acharam De Elias e Moisés enquanto as cores

Sobre a estola do Mestre se mudaram: Tal despertei da luz aos esplendores, Vi perto a dama que me fora guia Do rio à margem sobre a relva e as flores.

— “Onde é Beatriz?” — cuidoso lhe dizia. — “Da fronde nova à sombra a vês sentada, Junto à raiz” — Matilde respondia. “Da companhia sua é rodeada;

Ao céu após o Grifo os mais subiram, Com mais doce canção, mais sublimada.” — Não sei se as vozes suas prosseguiram Pois aquela aos meus olhos se mostrara,

Em quem meus pensamentos se imergiram. Sobre a terra bendita se assentara, Só, como em guarda ao plaustro portentoso, Que ao tronco antigo o Grifo vinculara.

Rodeiam-na, com círculo formoso, As ninfas sete, os lumes empunhando, Seguros de Austro e de Aquilão ruidoso. — “Na selva a tua estada abreviando,

Serás comigo na eternal morada Da Roma, onde tem Cristo o régio mando. “Do mundo em prol, perdido em rota errada, O carro observa e cada cousa atento

Guarda, por ser ao mundo registrada.” — Falou Beatriz; e eu, pois, que o entendimento Do seu querer aos pés tinha prostrado, Fitei no carro a vista e o pensamento.

Dos etéreos confins arremessado, Não rasga o raio à densa nuve, o seio, Com tanta rapidez precipitado, Como da alta ramada pelo meio,

Córtice fronde, flores destruindo, O pássaro de Jove irado veio. Com força imane o carro foi ferindo, Que aos golpes, qual navio, se agitava,

Que o mar combate os bordos lhe investindo. E logo após eu vi que se enviava Ao carro triunfal uma raposa, Que bom cibo não ter manifestava.

Increpando-lhe a vida criminosa, Beatriz pô-la em fuga, e em tanta pressa, Quanto sofreu-lhe a ossada cavernosa. Depois do carro à caixa a Águia se apressa

A vir por onde, há pouco, descendera; De inçar de plumas seus coxins não cessa. Qual gemido que a dor no peito gera, Ouvi do céu baixar voz, que dizia:

— “Ó barca! bem má carga ora se onera!” — A terra então me pareceu se abria, Entre as rodas um drago arrevessando Que pelo carro a cauda introduzia.

Depois a cauda atroce retirando, Qual vespa o seu ferrão, feita a ferida, Arranca o fundo e vai-se coleando. Como em terra vivaz relva crescida,

Cobre o resto plumagem de repente, Com tenção casta e pura oferecida; Timão e rodas vestem-se igualmente Tão presto, que um suspiro vem lançado

À flor dos lábios menos prontamente. Daquele claustro santo, assim mudado, Nos ângulos cabeças irromperam, Três no timão e uma em cada lado.

Essas, como as de boi, armadas eram; Uma só ponta as quatro guarnecia: Monstros iguais já nunca apareceram. Qual penhasco em montanha excelsa, eu via

No carro nua meretriz sentada, Lascivos olhos em redor volvia. Como para não ser-lhe arrebatada Em pé ao lado seu stava um gigante,

Com quem trocava beijos despejada. Que os olhos requebrava a torpe amante Pra mim notando, fero a flagelava Dos pés a fronte o barregão farfante.

No ciúme e na ira, que o inflamava Desprende o carro e à selva o vai tirando, Que depressa aos meus olhos ocultava A prostituta e o novo monstro infando.

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