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1822–1882

CANTO XXXI

José Pedro Xavier Pinheiro

A língua, que me havia vulnerado E a vergonha nas faces me acendera, O bálsamo aplicava ao mal causado: Assim de Aquiles e seu pai fizera,

Dizem, outrora a lança portentosa: Sarava o corpo, que cruel rompera. Damos costas à estância desditosa, Sem proferir palavra atravessando

Sobre a borda, que em torno jaz fragosa. Noite não sendo e dia não reinando, Pouco distante eu divisar podia, Eis som de trompa escuto, retumbando

Tão alto, que o trovão transcenderia, Donde irrompera contra a parte andava E sôfrego a um só ponto olhos prendia. A de Orlando tão forte não soava

Na derrota fatal, que a santa empresa De Carlos Magno o desbarato dava. Já assim por diante: eis a grandeza De muitas e altas torres me aparece.

“Qual é” — digo — “essa vasta fortaleza?” “Pois de tão longe e em trevas te apetece Julgar” — Virgílio diz — “um erro agora Imaginando estejas acontece.

“Verás ali chegado, sem demora, Quanto a distância a vista nos engana: O passo acelerar convém por ora”. Da mão travou-me e em voz suave e lhana

O Mestre prosseguiu: “Antes que avante Passes, dessa ilusão te desengana. “O que torre imaginas é gigante. Da cinta aos pés imergem-se no poço,

E alçam bustos em torno ao espaço hiante”. Quando o sol gasta o nevoeiro grosso, Pouco a pouco se mostra e é discernido Quanto oculta o vapor ao olhar nosso:

Vendo assim por esse ar escurecido, Da borda mais e mais me apropinquando, Fugia o erro, o horror tinha crescido. Como torres em roda se elevando,

Montereggion guarnecem de coroa: Assim do poço a margem circundando, Torreiam com metade da pessoa Os horríveis gigantes, que ameaça

Do céu ainda Jove, quando troa. Distingo a cara de um (e me transpassa O medo), logo os braços, peito e parte Do ventre, que da borda a altura passa.

Bem fez a natureza, quando essa arte De tais monstros criar há descurado, De iguais agentes desarmando Marte. Se ainda a selva e mar têm povoado

Do elefante e baleia, sutilmente Quem pensa justa e sábia a tem julgado. Mal seria aos humanos permanente, Se perspicaz engenho encaminhasse

Maligno instinto em robustez ingente. Larga e comprida, pareceu-me a face, Qual de S. Pedro, em Roma, a brônzea pinha: A proporção nas outras partes dá-se.

O corpo, que da borda acima vinha, Tanto ao ar elevava a grã figura, Que três Frisões, por lhe atingir a linha Da cerviz, não fariam tanta altura,

Porquanto eu esmava em trinta grande palmos Do colo ao poço a válida estatura. Rafael mai amècch zabi almos A pavorosa boca assim bradava;

Não podia entoar mais doces salmos. Disse-lhe o Mestre: “Ó alma bruta e brava! Tange a trompa, se queres lenitivo À paixão, que te acende ardente lava.

“A roda busca do pescoço altivo O loro, a que se prende alma confusa! Vê que te cruza o vasto peito esquivo”. Depois a mim: “De quanto fez se acusa,

É Nemrod; por tomar estulta empresa O mundo uma linguagem só não usa. “Deixêmo-lo: falar-lhe é vã despesa. Como idioma de outros não compreende,

A quem o escuta o seu move estranheza”. Vamos então caminho, que se estende À sestra. Outro, de besta quase a tiro, Está mais fero, o ar mais alto fende.

Que mão cativa o monstro, que admiro Dizer não sei: o seu direito braço Ao dorso preso vi, e ao peito diro O outro, de grilhão no estreito laço,

Que com círculos cinco lhe cercava Do enorme corpo o descoberto espaço. “Esse réprobo” — diz Virgílio — “ousava Medir forças com Jove soberano:

Eis o fruto do orgulho, que o danava! “Era Efialto: executou seu plano, Quando aos Deuses gigantes aterraram. Jamais os braços mover pode o insano”.

“Os meus olhos, ó Mestre, assaz folgaram, De Briaréu se vissem desmarcado As formas” vozes minhas lhe tornaram. “Anteu verás”, — me diz — muito afamado:

Stá solto, fala e nos demora perto, Há de ao fundo levar-nos de bom grado. “Remoto esse outro fica, e tem por certo Que em grilhões e estatura àquele iguala:

Mais fero em vulto, em mal é mais esperto”. Jamais um terremoto a torre abala Em convulsões tão rápido, tão forte, Como Efialto a mover-se. Eu já sem fala,

Assombrado, cuidei ter perto a morte; E de pavor sem dúvida expirara, Se ele preso não fosse, e de tal sorte. Presto ao lugar seguimos, onde pára

Anteu: fora a cabeça, em cinco braças À borda sobreleva, o que separa. “Tu, que no val feliz, aonde as graças E as palmas de Cipião colheu da glória,

Quando Aníbal vexavam só desgraças, “Mil leões apresaste por memória; Que, aos irmãos se ajudaras na alta guerra, Se crê triunfo registrasse a história

“Dos fortes filhos da fecunda Terra! Ao fundo transportar-nos sê servido, Onde ao Cocito o frio as águas cerra: “Te hemos a Tifo e a Tício preferido.

Dar pode este varão o que mais se ama: Curvando-te compraz ao seu pedido. “No mundo pode restaurar-te a fama, Pois vive e ainda longa vida espera,

Salvo se a Graça antes do tempo o chama”. Falara o Mestre. Anteu não considera: Toma-o logo nas mãos, que lesto of’rece E a que sentira Alcide a força fera.

Quando entre os dedos seus Virgílio vê-se, Diz-me: “Faze-te prestes, que eu te abrace!” Ao Mestre o meu querer pronto obedece. Quem Carisenda, em seu pendor olhasse,

Cuidara, ao passar nuvem, que iminente Ruína ao lado oposto ameaçasse: Tal Anteu parecia de repente Do corpo ao menear; quando o inclinava,

Estrada eu preferia diferente. Mas de leve no fundo nos pousava, De Judas e de Lúcifer assento. A postura deixando, que o dobrava,

Qual mastro empertigou-se num momento.

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