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1822–1882

CANTO XXX

José Pedro Xavier Pinheiro

Quando Juno, de Semele ciosa, Contra o sangue tebano se inflamava, Como o provou por vezes impiedosa, Tanta insânia Atamante perturbava,

Que a esposa ao ver, ao colo seu trazendo Os filhos dois, que a ele encaminhava, Gritou: “Redes tendamos! Já stou vendo Leoa e leõzinhos da embosacada!”

Disse e, raivoso, os braços estendendo De um, Learco, travava e de pancada Rodou-o e o percutiu em penedia. Ao mar lançou-se a mãe com outro abraçada

Quando a fortuna a cinzas reduzia A pujança de Tróia, em tudo altiva, E com seu reino o morto rei jazia, Hécuba triste, mísera, cativa,

Depois de morta Polixena vira, Do Polidoro seu em plaga esquiva, Súbito quando o corpo descobrira Uivou qual cão, de angústia possuída.

Tanto a pungente dor nalma a ferira! Mas em Tebas ou Tróia destruída Homens ou feras nunca revelaram Raiva, em tantos extremos desmedida,

Como almas duas lívidas, que entraram Nuas correndo, os dentes amostrando, Quais cerdos, que à pocilga se esquivaram. Uma alcançou Capocchio e, lhe cravando

No colo as presas, rábida, arrastava Sobre o ventre na rocha o miserando. Mas o de Arezzo, que tremendo estava “É Gianni Schicchi” — disse — esse raivoso:

De outros a pena o seu furor agrava!” “Possas livrar-te do outro esp’rito iroso!” Falei — “Se não te causa assim fadiga, Diz quem seja, antes de ir-se o furioso”.

“Aquele é” — respondeu — “uma alma antiga; É Mirra infame, que paixão ímpia Instigou ser do pai a sua amiga. “Para o seu crime consumar fingia

De outra pessoa as formas e o semblante. Igual ardil usara Schicchi um dia: “Para em prêmio alcançar égua farfante: Contrafez Buoso morto e ao testamento

Falso a norma legal deu, que é prestante”. Aos dois raivosos estivera atento Até que de ante os olhos se apartaram; De outros volvi-me ao cru padecimento.

Num do alaúde as formas se notaram Se as pernas lhe tivessem cerceado Na parte, em que do tronco se separam. Da grave hidropisia molestado,

Que tanto o humor vicia e tanto ofende, Que o rosto estreita e faz o ventre inchado, A boca ter cerrada em vão pretende, Qual hético de sede ressequido.

A quem um lábio se alça e o outro pende. “Ó vós, que ao negro abismo haveis descido (Não sei por que razão) de pena isentos, Olhai” — disse — “prestando atento ouvido,

“De mestre Adam miséria e sofrimentos Tive abastança; agora, ai! desejando De água uma gota, passo mil tormentos, “Dos ribeiros, que ao Arno, murmurando

Do Casentino lá na verde encosta Se vão, por moles álveos inclinando, “Na mente a imagem sempre tenho posta. Não em vão: mais me seca e me fustiga

Que o mal, de que esta face é descomposta. “Quer Justiça, que austera me castiga, Que o teatro, onde hei crimes cometido, Mais me acendendo anelos, me persiga.

“Lá demora Romena, onde hei fingido Em falso cunho a imagem do Batista; Assim meu corpo o fogo há consumido. “Se a sombra achasse aqui, se aqui já exista,

De Guido ou de Alexandre ou seu germano! Fonte-Branda esquecera ante essa vista. “Mas um já veio, se induzir-me a engano Os raivosos, que giram, não quiseram.

Que importa? Para andar em vão me afano. “Se os meus pés transportar-me inda puderam, De um sec’lo ao cabo, espaço de uma linha, Já postos a caminho se moveram,

“A fim de o ver na multidão mesquinha Do val, que milhas onze em torno amplia, Com largura, que de uma se avizinha. “Star lhes devo em tão triste companhia:

Florins cunhei, aos três obedecendo, Nos quais quilates três de liga havia”. “Quem são” — lhe disse — os dois que ora estou vendo? Quais no inverno mãos úmidas fumegam,

À destra tua próximos jazendo”. “Já stavam quando vim: eles se entregam, Dês que desci, a quietação completa; E creio, assim a eternidade empregam.

“Uma acusou José, falsária abjeta, Outro é Sinon, de Tróia o Grego tredo: Lançam por febre essa fumaça infecta”. Anojado um do par, que estava quedo,

Por ver em vozes tais afronta e ofensa, À pança o punho lhe vibrou sem medo: Soou, qual de zabumba a pele tensa. O braço Mestre Adam lhe envia à face

E assim lhe dá condi’na recompensa. “Inda que” — disse — os membros meus enlace Moléstia, que me tolhe o movimento, Presteza a destra tem, com que rechace”.

“Foste” — o outro tornava — “mais que lento Quando forçado ao fogo caminhavas. Só presto eras no ofício fraudulento”. “É certo; mas verdade não falavas”

O hidrópico diz — “quando exigiram Em Tróia essa verdade, que ocultavas”. “Se os lábios meus perjúrio proferiram, Tu falsaste moeda: eu fiz um crime,

Aos teus nunca em demônio iguais se viram”. “Do cavalo a façanha inda te oprime” — Responde o que a barriga tinha inchada — Sobre o teu nome infâmia o mundo imprime”.

“Arda em sede tua língua já gretada!” Grita o Grego — “Hajas de água saniosa O ventre impando, a vista embaraçada!” “Escancaras a boca venenosa”

O moedeiro diz — “por mal somente; Se sede eu tenho e a pança volumosa “Ardes tu e a cabeça tens fervente. Por lamberes o espelho de Narciso

A um aceno correras de repente”. Atento estava aos dois mais do preciso, Eis Virgílio me fala: — “Oh! toma tento! Quase que eu contra ti me encolerizo!”

Iroso assim falar neste momento O Mestre ouvindo, voltei-me corrido: Ainda sinto rubor em pensamento. Como quem sonha danos ter sofrido,

Que em sonho espera que sonhando esteja E anela que o que é já não tenha sido, A mente, sem dizer, falar deseja. Desculpas aspirando à falta sua;

Stá desculpada e cuida que o não seja. “Menos rubor lavara a culpa tua” Disse o Mestre — “se houvera mor graveza: Fique-te a mente da tristeza nua.

“E quando queira o acaso que à torpeza De iguais debates se ofereça ensejo. De que eu steja ao teu lado faz certeza, Que é ter querendo ouvi-los, vil desejo”.

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