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1822–1882

CANTO XXVII

José Pedro Xavier Pinheiro

Como, quando os primeiros raios vibra Lá onde Cristo sangue derramara, Sotopondo-se o Ebro à excelsa Libra, E, ao meio-dia, o Gange aquece e aclara

Stava o sol; declinando a luz já se ia: Eis ledo o anjo de Deus se nos depara. Fora da flama, à borda ele se erguia, Beati mundo corde modulando.

Em tom de voz, que a humana precedia. “Para avante passar” — acrescentando — “Apurai-vos no fogo, almas piedosas! Entrai, de além nos hinos atentando.”

Lhe ouvindo ao perto as vozes sonorosas, Sossobrei, como quem, perdido o alento, Da tumba às trevas desce pavorosas. Mãos cruzadas, quedei sem movimento;

De olhos na chama, os vivos relembrava, Que das fogueiras vira no tormento. A mim cada um dos Vates se voltava. — “Não temas, filho! Aqui dor se padece,

Mas não morte” — Virgílio me exortava. “Lembra! Lembra ou memória em ti falece? Já sobre Gerião levei-te a salvo: De Deus mais perto, em mim virtude cresce.

“Se destas chamas, crê, tu foras alvo Em todo o espaço de um milheiro de anos, De um só cabelo ficarias calvo. “Se cuidas no que digo haver enganos,

Te acerca e por ti próprio experimenta, Ao fogo expondo de tua veste os panos. “Todo o temor do ânimo afugenta! Vem, pois! Mostra que tens peito seguro!” —

Ouvi, mas o valor meu não se aumenta. Vendo-me ainda pertinace e duro, Merencório me disse: — “Ó filho amado, De Beatriz a ti só este muro!” —

De Tisbe ao nome, Píramo chegado À morte, os olhos para vê-la abria, Quando há seu sangue à amora cor mudado; A resistência minha assim cedia.

A Virgílio volvi-me, o nome ouvindo, Que sempre o pensamento me alumia. Então a fronte meneou; sorrindo, Como a infante, que um pomo há seduzido,

Disse: — “Aqui ficaremos persistindo?” — Sou por ele no fogo antecedido; Estácio, que antes sempre caminhara, Depois de mim seguia a seu pedido.

Eu pelo fogo apenas penetrara, Ardor tanto senti, que, pra recreio, Em vidro derretido me lançara. De confortar-me procurando o meio,

De Beatriz Virgílio assim falava: — “Seu gesto julgo ver de fulgor cheio.” — Voz peregrina ouvi, que ali cantava: Fora saímos nós, dos sons guiados,

Na parte, onde a subida se mostrava. — “Vinde, ó vós de meu Pai abençoado!” — Do seio de um luzeiro retinia, Tal que os olhos cerram-se ofuscados.

“Transmonta o sol, a noite segue ao dia, Não vos detende; a passo andai ligeiro, Que o Ponente já trevas anuncia.” — A trilha no penhasco sobranceiro

Direita sobe à parte em que tolhia A sombra minha o lume derradeiro. Vencido apenas nosso passo havia Alguns degraus, a sombra, que fenece,

Mostra que o sol já luz não difundia. Antes que em todo apresentado houvesse O imenso horizonte igual aspeito, E a noite os seus véus todos estendesse,

Um degrau cada qual tomou por leito; Que nos tirara da montanha a agrura, Mais que o desejo de subir o jeito. Como as cabras das penhas sobre a altura,

Antes de fartas, rápidas e ardentes, Têm, ruminando, mansidão, brandura; Pousam à sombra, enquanto o sol candentes Lumes despede, e as guarda o pegureiro

Com seu cajado e os olhos previdentes; E como o guardador, que no terreiro Quedo pernoita em sentinela aos gados Contra assaltos do lobo carniceiro:

Assim nós três estávamos pousados, Eu como cabra, os Vates quais pastores, Da rocha a um lado e a outro conchegados. Escassa aberta deixa ver fulgores

De estrelas, que do céu naquela parte, Contemplava mais lúcidas, maiores. Nessa vista engolfei-me por tal arte, Que o sono me prendeu, sono que à mente

Do que há de ser a provisão comparte. Naquela hora em que Vênus do Oriente Seus lumes sobre o monte difundia, Parecendo de amor star sempre ardente,

Jovem formosa em sonho ver eu cria, Dama que em veiga amena passeando, Flores colhendo, a modular dizia: — “Quem meu nome pedir, vá me escutando:

Sou Lia e uma grinalda, cuidadosa, Co’as minhas belas mãos a tecer ando. “Mirar-me, hei-de no espelho mais garbosa: De sua mana, Raquel se não separa,

Sentada o inteiro dia descuidosa. “De ver os belos olhos seus não pára, Como eu em me adornar sou diligente: Ela contempla, eu trabalhar tornara!”

Já vem do dia o precursor splendente, Que tanto alenta a esp’rança ao peregrino, Quando o seu lar já próximo pressente. Fugia a treva ao lume matutino

— E com ela o meu sono: ergui-me ativo, Dos mestres tendo no exemplo o ensino. — “O pomo, que é tão doce, quanto esquivo, Que a ambição dos mortais procura ansiosa,

Hoje à fome há de dar-te o lenitivo.” — Estas palavras proferiu donosa Do Mestre a voz: janeiras não dariam Jamais satisfação tão graciosa.

Tão vividos anelos me pungiam De alar-me ao cimo excelso, que julgava Que asas o passo meu favoreciam. Quando a comprida escada terminava

E o pé firmamos no degrau superno, Virgílio, me encarando, assim falava: — “O fogo temporário e o fogo eterno Tens visto, filho, e a altura hás atingido.

Além de cuja extrema não discerno: “Te hei com engenho e arte conduzido: Seja-te agora o teu querer o guia; Angústias e fraguras tens vencido.

“Olha: o semblante o sol já te alumia; Flores, ervinhas, árvores virentes Vê que a terra espontânea brota e cria. “Antes que os olhos venham refulgentes,

Que em teu prol me enviaram por seu pranto, Repousa, ou pelos prados vai florentes. “Não mais te falo, nem te aceno, entanto; Possuis vontade livre, reta e boa,

Cumpre os ditames seus: a ti, portanto, Pois de ti és senhor, dou mitra e c’roa.

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