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1822–1882

CANTO XXVI

José Pedro Xavier Pinheiro

Enquanto imos a borda costeando. Um após outro, o Mestre repetia: “Eu te previno, vai com tento andando!” O sol pela direita me feria;

Purpureava a luz todo o poente: Do céu o azul de branco se tingia. Co’a sombra minha ainda mais rubente Parece a flama; e as almas, que passavam,

Notando-a davam-me atenção ingente. Nessa estianheza ensejo deparavam Para, entre si, conversação travarem. “Não é fictício o corpo seu” — falavam.

Quando podiam, mas tendo cuidado Avançavam por mais certificarem, O fogo expiatório em não deixarem. — “Tu, que vais após outros colocado,

Mostrando ser, não tardo, respeitoso, Responde: em fogo e sede ardo, abrasado. “Não sou eu só de ouvir-te desejoso: Quantos vês da resposta sentem sede

Mais que Etíope da água cobiçoso. “Diz-nos como o corpo teu parede Oponha desta sorte à luz do dia: Não te colheu da morte acaso a rede?” —

Uma sombra falou-me. Eu pretendia Logo explicar; porém fui distraído Pelo que então de novo aparecia. Pelo caminho andando escandecido,

Outra grei ao encontro veio desta: Atalhei-me, em mirar pondo o sentido. De parte a parte se dirige presta Uma alma a outra; osculam-se e em seguida

Vão-se, contentes dessa breve festa. Assim da negra legião saída, Em marcha, toca em uma outra formiga, Por saber do caminho ou sorte havida.

Separando-se após a mostra amiga, Antes que o giro sólito transcorra Cada uma grei em brados se afadiga. — “Sodoma!” — clama a última — “Gomorra!”

E a outra: — “Entrou Pasifae na vaca, Por que à luxúria sua touro acorra.” — Como grous, de que um bando se destaca Para os Rifeus e o outro pra o deserto,

Pois calma ali e frio aqui se aplaca, Uns se vão, outros vêm; voltando, ao perto O hino se renova, e o pranto e o brado, Que tem, qual mais convém, efeito certo.

Os mesmos, que me haviam perguntado, De mim como inda há pouco, se acercaram: Stá desejo nos gestos desenhado. Vendo ainda o que já manifestaram,

— “Sabeis vós, que tereis de glória em dia, Paz que os vossos martírios vos preparam, “Que inda não jaz meu corpo em terra fria; Comigo vem na própria compostura,

Com seu sangue e seus membros” — lhe dizia. “Minha cegueira aqui a luz procura: Lá no céu santa Dama há conseguido Que eu, vivo, por aqui me eleve à altura.

“Dizei-me (e seja em breve concedido) Quanto anelais, no céu, que é de amor cheio E em que espaço mais amplo está contido! “Para que eu tenha de narrá-lo o meio,

Quem fostes e também que turba é aquela, Que como hei visto ao vosso encontro veio.” — Se o pasmo seu o montanhês revela, Quando rude e boçal vê de repente

Quanto pode encerrar cidade bela, Na grei não foi o efeito diferente. Tornando sobre si, porém, do espanto, Que se esvai logo em peito preminente,

— “Ditoso tu, que vendo o nosso pranto” — Respondeu quem primeiro há perguntado — “Alcanças ao viver ensino santo! “Inquinaram-se aqueles no pecado,

Porque César outrora, triunfando, , em vitupério, foi chamado. “Eis por que se acusavam se apartando, Contra si de — Sodoma! alçando o brado,

Do fogo à pena o opróbrio acrescentando. “Hermafrodito foi nosso pecado; Mas tendo as leis humanas transgredido De brutos no apetite desregrado,

“Por nossa injúria o nome é repetido, Quando partimos, da mulher impura, Que em bestial figura besta há sido. “Se queres, vendo a nossa nódoa escura,

Do nome de cada um ser instruído, Não sei, nem tempo para tal nos dura. “Mas o meu te farei bem conhecido; Vês Guido Guinicelli: o crime expia

Por se haver inda a tempo arrependido.” — Quais, ante a fúria em que Licurgo ardia, Os filhos dois achando a mãe, ficaram, Tal senti, sem correr viva alegria,

Quando o nome essas vozes declararam Do pai meu e do pai de outros melhores, Que em doce metro amores decantaram. Sem falar, sem ouvir perscrutadores

Longamente olhos meus o contemplaram: Vedavam-me acercar do fogo ardores. Depois que em remirá-lo se enlevaram, Ao seu serviço declarei-me presto,

E solenes promessas o afirmaram. — “Imprimiu tal vestígio o teu protesto” — Tornou — “no peito meu agradecido, Que fora além do Letes manifesto.

“Se hei de ti a verdade agora ouvido, O que di’no me fez do sentimento, Que tens na voz, nos olhos insculpidos?” — E eu: — “Das rimas vossas o concento,

Que, enquanto usar-se do falar moderno, Salvas hão de viver do esquecimento.” — — “O que te indico, irmão” — tornou-me terno (E seu dedo outra sombra me apontava)

Mais primor teve no falar materno. “Nos versos, nos romances superava A todos: stultos só dizer ousaram Que o Limosim aquele avantajava.

“Pelo rumor verdade desprezaram, E, como arte e razão desconheceram, Sem fundamento opinião formaram. “Assim muitos outrora procederam

Com Guittone e o seu nome hão proclamado; Mas verdade alfim todos conheceram. “E pois que o privilégio hás alcançado De entrar nesse mosteiro portentoso,

Por Cristo, como abade governado, “Um Pater Noster diz por mim piedoso; Quanto mister havemos neste mundo, Onde ato algum não há pecaminoso.” —

“Por dar lugar ao spírito segundo, Já próximo, no fogo desparece. Qual peixe, quando imerge de água ao fundo. Acerquei-me da sombra que aparece,

E disse que ao seu nome apercebia Meu desejo o lugar que assaz merece. Logo assim livremente me dizia: — “Tão cortês vosso rogo é, que escutando,

Me encobrir não quisera ou poderia. “Arnaldo sou, que choro e vou cantando, Triste os erros passados meus lamento, E o fausto dia estou ledo esperando.

“E peço-vos pelo alto valimento, Que da escada a eminência ora vos guia, Que em tempo vos lembreis do meu tormento.” E, após, ao fogo apurador se envia.

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