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1822–1882

CANTO XXIV

José Pedro Xavier Pinheiro

Naquela parte do ano incipiente, Em que as comas do sol se fortalecem No Aquário, e a noite iguala o dia ausente, Quando as geadas matinais parecem

Da alva irmã figurar a imagem pura, Mas tais feições em breve se esvaecem. Campino, que a indigência já tortura, Ergue-se, e vendo o prado embranquecido.

No coração calar sente a amargura. Torna ao tugúrio e carpe-se abatido, Como quem toda a esp’rança já perdera; Mas vendo em breve o campo estar despido

Do triste manto, o alento recupera. Revigorado então, corre ao cajado E as ovelhas ao pascigo acelera. De temor me senti, dessa arte, entrado

Do mestre merencóreo ante o semblante; Mas logo ao mal foi bálsamo aplicado. À ruína chegamos: nesse instante Virgílio volve àquele doce gesto,

Que eu da colina ao pé vira ofegante. Reflete um pouco, o estado manifesto Da rocha examinando: eis-me, estendendo Os braços, resoluto ergueu-me presto.

Como aquele que uma obra entre mãos tendo. Logo noutra tarefa põe o intento, Num rochedo Virgílio me sustendo, Já de outro acima me avisava atento.

“Mais alto agora sobe” — me dizia — “Vê se a rocha está firme! Toma tento!” De capa ali ninguém transitaria; Pois nós, leves e eu sempre transportado,

Subíamos a custo a penedia. Se mais alto o declive do outro lado Não fora do que esse outro, em que ora estamos, — Dele não sei — ficara eu lá prostrado.

Que Malebolge inclina-se notamos À boca enorme do profundo poço; As encostas, são tais — expr’imentamos — Que uma é baixa, outra excelsa em cada fosso.

Vimos, enfim, do topo à roca extrema, Dessa ruína ao último destroço. Lá chegado, afã tanto o peito prema, Que avante um passo dar eu mais não pude;

Sentei-me então na inanição suprema. “Eia! toda a fraqueza em ti se mude! Em ócio” — disse o Mestre — “ou sobre a pluma Prêmios ninguém conquista da virtude.

“Aquele que a existência assim consuma, Tal vestígio de si deixa na terra, Como o fumo no ar e na água a espuma. “Ergue-te, pois! Torpor de ti desterra!

Recobra o esforço que os perigos vence! Impere alma no corpo em que se encerra! “Que vais subir muito alto a mente pense; Desse abismo não basta haver saído.

Será teu prol, se a minha voz convence”. Alço-me então, mostrando-me impelido De alento, que não tinha; e ao Mestre digo: “Avante! Forte já me sinto e ardido!”

Pela rocha asperíssima prossigo Mais estreita, inda menos acessível Que a outra: os passos de Virgílio sigo. Por provar-me às fadigas insensível

Falando andava. Eis ouço de outra cava Ressoar voz bem pouco perceptível. O que disse não sei, posto me achava Da ponte sobre a parte culminante;

Mais parecia iroso quem falava. Curvei-me para ver no fosso hiante, Mas alcançar não pude o fundo escuro. Ao Mestre disse então. “Se apraz-te, avante

Passando, desceremos deste muro; Daqui ouço uma voz, mas não a entendo; Fito os olhos, mas nada me afiguro”. “Respondo aos teus desejos, acedendo;

Que o pedido discreto assim declaro Se cumpre, não falando, mas fazendo”. Fomos da ponte à parte, donde é claro Que se vai ter à ribanceira oitava:

Ficou patente a cava ao meu reparo. De serpes tal cardume se enroscava, Horríficas na infinda variedade, Que ao sangue, inda ao lembrar, terror me trava.

Não tenha a Líbia de criar vaidade, De quersos, fares, cencris no seu seio E anfisbenas, tamanha quantidade. Nem do mar Roxo em plagas, nem no meio

Da Etiópia, tropel tão pavoroso De flagelos jamais a lume veio: Por entre o enxame atroce e temeroso Almas corriam nuas e transidas,

Heliotrópia não sperando ou pouso. Atrás as mãos por serpes são tolhidas, Que, transpassando os rins, cauda e cabeça, Lhes tinham por diante em laços unidas.

Eis uma de repente se arremessa Ao prescito, que perto nos demora: Morde-lhe o colo aonde a espádua cessa. Um O traçar ou I mais custa agora

Do que ser o mesquinho incendiado: Em cinzas cai o pecador, que chora. Stando em terra desta arte derribado, Juntou-se a cinza e logo reformou-se,

Como de antes, o triste condenado. Dos sábios na escritura já narrou-se Que a Fênix morre e logo após renasce, Quando aos anos quinhentos acercou-se.

Viva, já nunca em cibo ela se pasce, Em lágrimas, porém, de incenso e amono; De nardo e mirra em ninho extremo apraz-se. Como aquele que cai sem saber como,

Do demônio ao poder, que à terra o tira, Ou de outra opilação sentindo o assomo; Levantando-se, em torno a si remira, Da angústia inda aturdido, que o mordera,

E, em seu soçobro, pávido suspira: Assim parece o pecador, que ardera. Contra os pecados na final vingança, Ó Justiça de Deus, quanto és severa!

Quem fora inquire o Mestre, e dele alcança Estas vozes: — “Há pouco, da Toscana Chovi no abismo, onde ninguém descansa. “Vida brutal vivi, não vida humana.

Chamei-me Vanni Fucci, híbrida besta; Pistóia, meu covil, de mim se ufana”. Ao Mestre eu disse: — “Referir-nos resta O crime, que deu causa à morte sua:

Sei que em sangue banhara a mão funesta”. O pecador, que me ouve, não se amua: Volta-me presto a cara, em que a tristeza Com sinais de vergonha se insinua

E diz: — “Sinto da dor mais a aspereza, Porque em miséria tanta me vês posto, Do que quando da morte hei sido a presa. “Ao que exiges respondo com desgosto:

Por ter roubado alfaias e ornamento Da igreja, aqui estou, sendo meu gosto “Que pelo crime houvesse outro tormento. Se deste antro saíres algum dia,

Por que não sejas do meu mal contento, “Ouve bem o que a voz minha anuncia: De si Pistóia os Negros expulsando, Povo, modos, Florença então cambia.

“Vapor de Val de Magra Marte alçando, O traz em torvas nuvens envolvido; E, enquanto a tempestade está raivando, “No campo de Picen será ferido

Combate; a névoa logo se esvaece; Dos Brancos cada qual será batido. “Sabe-o, pois: certo, a nova te entristece”.

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