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1822–1882

CANTO XXIV

José Pedro Xavier Pinheiro

“Ó sodalício, à ceia convidado Do cordeiro de Deus, que dá sustento Tal, que o apetite heis sempre saciado, Se inda antes de chegar ao passamento

Preliba este homem — assim Deus dispensa — Da mesa, em que comeis, tênue fragmento: Alívio dai-lhe em sua sede imensa. Na fonte sempre hauris, de que deriva

Quanto ele, sôfrego aspirando, pensa.” — Disse então Beatriz. Com flama viva, À guisa de cometa, a grei contente, Como esferas em pólos, gira ativa.

Em relógio quem põe atenta a mente, Das rodas uma cuida estar sem moto E correndo estar outra velozmente: Pelo vário compasso que lhes noto

Nas coréias, já lento, já apressado, Da glória sua a estimativa adoto. Do círc’lo em mor beleza assinalado Um lume vi surgir tão venturoso,

Que outro nenhum ficara avantajado. Em torno a Beatriz girou formoso Por vezes três com tão divino canto, Que trasladar não posso o som donoso.

Screver não cabe à pena enlevo tanto, Cores não tem palavra ou fantasia, Que exprimam propriamente o doce encanto. — “Santa irmã nossa, que dessa arte envia

Devotos rogos, teu ardente afeito Dessa bela coréia me desvia.” — Parando, o bento lume ao claro aspeito De Beatriz o sopro há dirigido,

Que falou do que eu disse pelo jeito. — “Eterna luz desse varão subido, Que de Deus” — torna — “as chaves da alegria Que infinda à terra deu, hás recebido,

“Deste homem como queiras avalia O saber sobre a Fé lhe perguntando, Pela qual sobre o mar andaste um dia. “Se bem crê, se bem spera, terno amando,

Certo sabeis, pois tens fitado a vista Onde tudo se está representando. “Mas como cidadãos o céu conquista Pela Fé verdadeira, para honrá-la

Explique ele por que na Fé persista.” — O bacharel apresta-se e não fala Té que o Mestre a questão haja of’recido, Por aprová-la, não por terminá-la:

Assim, de todas as razões munido, Dispus-me, enquanto Beatriz se explica, A tal assunto, por tal Mestre arguido. — “Teu pensar, bom cristão, me significa:

O que é Fé?” — Presto, ouvindo, o rosto alçava Para a luz, que a questão desta arte indica. Voltei-me a Beatriz: já me acenava Para que sem detença água fizesse

Brotar da interna fonte, onde a guardava. — “A graça, que concede eu me confesse Ao sublime Primópilo” — assim digo — “Permita que os conceitos claro expresse!

“Como escrito, Pai meu,” — depois prossigo — “Foi com verdade pelo irmão amado, Que Roma em bom caminho pôs contigo, “É a Fé a substância do esperado

E argumento evidente do invisível: Da Fé a essência assim tenho julgado.” — Tornou-me: — “O parecer teu é plausível, Se o porque foi substância definida

E argumento te fica inteligível.” — — “De mistérios” — disse eu — “soma crescida, A mim nestas esferas revelada, Está na terra aos olhos escondida.

“Sua existência em crença é só firmada, Em que se fundamenta alta Esperança: Substância, pois, tem sido intitulada. “E como em crença o raciocínio lança

As premissas sem ter mais outra vista, Por isso de argumento o nome alcança.” — — “Se quanto lá na terra homem conquista Por doutrina, assim fosse comprendido,

Lugar faltava ao engenho do sofista” — Daquele aceso amor foi respondido; E mais: — “Nesta moeda examinado Metal e peso muito bem tem sido.

“Mas diz: na bolsa a tens arrecadado?” — — “Sim” — tornei — “tão redonda é, tão polida, Que do bom cunho estou certificado.” — A voz então, desse esplendor saída

Perguntou-me: — “Essa pedra preciosa, Em que toda virtude se acha erguida “Donde a tens?” — Eu: — “A chuva copiosa, Pelo Espírito Santo derramada

Na Lei antiga e nova portentosa, “Razão é, porque foi-me demonstrada Com agudeza tal, que outra seria Obtusa, se lhe fora comparada.” —

— “Porque divina lei pareceria A nova e a antiga” — a voz logo retorna — “Que a tão profunda convicção te guia?” — — “É prova que a verdade clara torna

De obras a série” — eu disse — “a que natura Nunca ferro aqueceu, bateu bigorna.” — A luz me replicou: — “Quem te assegura Que as obras fossem tais? Quem defendido

Por provas deve ser. Quem mais to jura? Então falei: — “Se o mundo convertido Sem milagres de Cristo à lei se houvesse, Este o maior milagre houvera sido;

“Porque pobre, em jejum, para ter messe Semeado hás na terra ótima planta: Onde foi vinha, hoje espinhal só cresce.” — Mal concluía, quando a corte santa

Nas esferas — Louvemos Deus! — entoa Nessa toada, em que no céu se canta. Do sublime Barão, que até a c’roa De ramo em ramo me elevado havia,

Naquele exame, a voz de novo soa. — “A graça com tua mente consorcia Tanto, que por teus lábios tem falado: Té aqui respondeste o que cumpria.

“Dou, pois, assenso ao que me tens tornado; Mas tua crença exprime, lhe acrescendo De que fonte à tua alma ela há brotado.” — — “Ó Santo Padre, ó Spírito, que vendo

Stás quanto creste, tanto que chegaste Ao Sepulcro, o mais moço antecedendo, “Direi” — lhe torno — “(assim determinaste) Da minha Fé a fórmula evidente,

Sua origem direi como ordenaste. “Em um só Deus eu creio onipotente, Eterno, que, imutável, os céus move No desejo e no amor sempre clemente.

“São, para que tal crença se comprove, Metafísica e física discretas; Mas da verdade a prova também chove “Por Moisés, pelos salmos, por profetas,

Pelo Evangelho e escritos, que inspirado Vos tem o Esp’rito Santo, almas seletas. “Nas Três Pessoas creio afervorado; Creio na essência delas Una e Trina,

Tanto que é stá com bem conjugado. “O que de altos mistérios da divina Condição digo, em traços mil se assela Em mim pela evangélica doutrina.

“Este o princípio, esta a fagulha bela, Que depois se dilata em flama ardente E em mim cintila, qual nos céus estrela.” — Qual patrão, que de servo diligente

Aprazíveis notícias escutando, Feito o silêncio, o abraça de contente, Assim, quando acabei, me abençoando E cantando, três vezes me acercava

O esplendor apostólico, mostrando Das respostas que eu dei quanto folgava.

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