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1822–1882

CANTO XXIII

José Pedro Xavier Pinheiro

Fitava os olhos sobre a rama verde, Qual caçador, que após um passarinho, Correndo, parte da existência perde. Quando o que me era mais que pai: — “Filhinho,

O tempo” — disse — “que nos stá marcado, Quer mais útil emprego. Eia! a caminho!” — Voltando o rosto, a passo acelerado Os sábios sigo e, atento ao que falavam,

Não me sentia, andando, fatigado. Plangentes vozes súbito entoavam Labia, Domine, mea por maneira, Que piedade e prazer me provocaram.

— “Do que ouço”— disse então — “ó Pai, me inteira.”— — “Almas” — tornou — “talvez que o meio tentam, Que o peso à sua dívida aligeira.” — Peregrinos solícitos que atentam

Só na jornada, achando estranha gente, Vontam-se apenas, mas o passo alentam: Tal após nós vem turba diligente; Em devoto silêncio se acercava;

Olhou-nos e afastou-se prestamente. Os olhos encovados nos mostrava, Pálida a face e o rosto descarnado, Sobre os ossos a pele se estirava.

Não creio que Erisicton devastado Tanto da fome horrível estivesse Quando das forças viu-se abandonado. Eu cogitava: — “O povo aqui padece,

Que Solima perdeu, quando Maria Carnes comeu ao filho, que perece.” — Cad’olho anel sem pedra parecia: O que na humana face lesse “omo”

Bem claro o aqui distinguiria. Quem crer pudera, não sabendo como, Efeito de desejo ser, nascido Do frescor de água, junto a odor de pomo?

Atônito inquiria o que haja sido De tal fome a razão, não manifesta, Que tal magreza tenha produzido, Eis lá da profundez da sua testa

Uma alma olhos volvia e me encarava, Gritando: — “Mereci graça como esta?” — Quem fora o gesto seu não me indicava; Mas tive pela voz prova segura

Do que o aspecto seu não revelava. Foi súbito clarão em noite escura, Do rosto avivou traços deformados Forese conheci nessa figura.

— “Ai! não fiquem teus olhos assombrados” — Dizia — “a lepra ao ver que me descora, E estes ossos mesquinhos, descarnados! “Dize a verdade de ti próprio agora:

De quais almas te vejo companheiro? Não haja, rogo, em responder demora.” — — “Como outrora é meu dó tão verdadeiro, Vendo-te o vulto que chorei já morto,

Tão dif’rente do que era de primeiro, “Dize, por Deus, por que és tão sem conforto: Tolhe-me a fala a vista, que me espanta; Responder-te não posso, em mágoa absorto.” —

— “De tal poder” — tornou — “essa água e planta Sabedoria eterna tem dotado, Que consumpção em mim produziu tanta. “Os que o rosto, cantando, têm banhado

De pranto, havendo entregue à gula a vida, Sobem, na fome e sede, o santo estado. “A fome, a sede sente-se incendida Dos pomos pelo aroma e por frescura

Das águas, sobre as ramas espargida. “Cada vez que giramos na fragura, Revive nossa pena e mais agrava; Erro chamando pena o que é doçura.

“Esse desejo ardente de nós trava, Que fez Cristo dizer — Eli! contente, Quando o sangue em prol nosso na Cruz dava.” — — “Forese” — hei respondido incontinênti —

“Dês que deixaste a terreal morada Passaram-se anos cinco escassamente; “Se a força de pecar stava esgotada Antes de vir da dor bendita a hora,

Em que alma é com seu Deus conciliada, “Como te vejo nesta altura agora? Lá embaixo encontrar-te acreditara, Onde o tempo com tempo se melhora.” —

— “Conduziu-me tão cedo Nela cara, Por pranto, que incessante há derramado, Do martírio a tragar doçura amara. “De orações e suspiros sufragado

Assim, me alcei da encosta, onde se espera, E fui dos outros círc’los resgatado. “Tanto mais Deus com dileção esmera Aquela, que extremoso amei na terra,

Quanto, só, em virtude ela é sincera. “Pois a Barbagia de Sardenha encerra Mulheres por pudor bem mais notadas, Que a Barbagia, onde o vício acende guerra.

“Queres tu, doce irmão, manifestadas Idéias minhas? Pouco dista o dia Das vozes nesta prática empregadas, “Em que proíba o púlpito a ousadia

Das impudentes damas florentinas, Que têm, mostrando os seios, ufania. “Morais ou quaisquer outras disciplinas Hão mister para andarem bem cobertas

As mulheres pagãs ou marroquinas? “Mas, se tais despejadas foram certas Do castigo, que está-lhes iminente, Bocas teriam para urrar abertas.

“E, se, antevendo, não me engana a mente, Grande angústia hão de ter antes que nasça Barba ao que em berço embala-se inocente. “Ah! de dizer quem sejas faz-me a graça!

Não por mim; mas a turba atenta mira Teu corpo e a sombra, que com ele passa.” — — “Se agora à mente” — eu disse — “te surgira O que outrora um pra o outro havemos sido,

Desprazer inda agudo te pungira. “Há pouco, me há do mundo conduzido Quem me precede; havia então rotunda A irmã do que vês aparecido.” —

E o sol mostrei — “Por noite a mais profunda Dos verdadeiros mortos me há guiado, Quando a carne inda os ossos me circunda. “Tenho depois, por ele confortado,

Desta montanha pelos círc’los vindo, Que em vós corrige o que trazeis errado. “Quanto disse, acompanha-me, cumprindo Té onde a Beatriz veja o semblante:

Então sem ele avante irei seguindo. “Ei-lo! É Virgílio o guia meu constante! É aquele outro a sombra venturosa Por quem o vosso reino, vacilante,

Tremeu, quando partiu-se jubilosa.” —

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