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1822–1882

CANTO XXII

José Pedro Xavier Pinheiro

Marchar vi cavaleiros à peleja, Travar luta, enlear-se no combate E até pedir à fuga que os proteja; Em vossa terra esquadras dar rebate

Vi, Aretinos; vi as cavalgadas, Torneios, juntas no mavórcio embate, De tubas ao clangor, às badaladas, Com sinais de castelos, de tambores,

Com artes novas ou entre nós usadas: Não vi mover peões, nem corredores, Nem baixéis, que regula a terra ou estrela, De igual clarim aos sons atroadores.

Com dez demônios (que companha bela!) Partimo-nos, porém rezar com santo, Urrar com lobos discrição revela. Minha atenção no pez se engolfa, entanto,

Por saber quanto encerra a negra cava, Ali quem pena, quem derrama pranto. Como o delfim, que da tormenta brava O nauta avisa, o dorso recurvando,

Presságio do mau tempo, que se agrava. Um lenitivo à pena, assim, buscando, Mostrava o tergo algum dos condenados, Qual relâmpago, logo se esquivando.

Como à borda de charcos enlodados A fronte deixa à rã ver da água fora, Pernas e corpo tendo resguardados: Assim no pez a gente pecadora.

Mas, Barbariccia próximo já sendo, Na resina se esconde abrasadora. Eu vi (e ainda agora estou tremendo!) Em cima retardar-se um desditoso

Qual rã, que fica, as mais desparecendo. Perto ali stava Grafiacane iroso: Fisgou-o na enviscada cabeleira, E alçou, qual lontra, ao ar o criminoso.

Sabia os nomes da caterva inteira; Ouvindo-os, atentei nos escolhidos: Distingui-los podia de carreira. “Eia! depressa os teus ferrões compridos

No costado lhe crava, ó Rubicante!” Os demônios gritaram-lhe incendidos. “Ó Mestre” — disse — “inquire insinuante Quem seja aquele mísero e mesquinho

Que em mãos caiu da turba petulante”. Moveu-se o Mestre e, à cava já vizinho, Perguntou-lhe em que terra ele nascera. — “Em Navarra” — tornou-lhe — eu tive o ninho.

“De um fidalgo ao serviço me pusera Minha mãe, quando o pai meu devastara Fazenda e a própria vida com mão fera. “D’El-rei Tebaldo eu na privança entrara:

Vendia os seus favores fraudulento; Sofro a pena do mal, que praticara”. Então os dentes lhe cravou cruento, De javardo quais presas, Ciriatto:

Armam-lhe a boca, servem de instrumento: Nas mãos de imigo seu caíra o rato: Barbariccia, entre os braços o estreitando, — “Alto!” — lhe diz — “A mim cabe seu trato”.

E o rosto para o Mestre meu voltando, Falou: — “Pergunta, se ainda mais desejas Antes que o tenha lacerado o bando”. “Algum dos pecadores, com quem stejas”

Virgílo interrogou — “Latino há sido?” Tornou: — “Vou contentar-te no que almejas. “No pez deixei alguém por tal havido... Ah! não temera, estando lá coberto,

Ser de unhas e farpões ora ferido”. — “É demais!” — Libicocco diz, que perto Estava; e um braço ao triste dilacera, Do croque ao golpe, aquele algoz esperto.

Às pernas Draghignaz também quisera Do mísero investir; o cabo iroso Acesos olhos volve e os dois modera. Cessa um pouco o rumor e pessuroso

Pergunta o Mestre àquela sombra aflita, Que do golpe olha o efeito doloroso: “Quem foi essa alma, como tu prescita, Que, por vires à tona, hás lá deixado?”

Responde o pecador: — “Foi Frei Gomita De galura, nas fraudes consumado Que do seu amo a imigos poupou dano, E, traidor, foi por eles premiado.

“Por ouro os deixou ir, como de plano Confessa; e em tudo o mais provou ter foro Nas tretas, ser nos dolos soberano. “Miguel Zanche, o Juiz de Logodoro,

Com ele ostenta, em práticas frequentes De crimes, em Sardenha, o seu tesouro. “Ai! vede como esse outro range os dentes! Iria por diante; mas receio

Na pele a fúria dos ferrões pungentes”. Atenta o cabo de olhos no meneio Com que a ferir se apresta Farfarello. “Vai daí!” — lhe gritou — “pássaro feio!”

— “Se Toscanos, Lombardos tens anelo De ver e ouvir” — o triste prosseguia — “Traça darei, com que satisfazê-lo. Suspendam Malebranche essa porfia;

Não temam sócios meus dura vingança, Que eu, sentado, um só não, muitos faria “De lá surdir, segundo a nossa usança, Ao sinal de assovio, que de ausente

Perigo ao vir à tona dá fiança”. Cagnazzo alça o focinho, de repente, E, abanando a cabeça, diz — “Cuidado! Astúcia é por lançar-se ao pez fervente”.

Ele, que em cópia ardis tinha guardado, Tornou: — “Sutil astúcia, na verdade, Causar aos meus tormento redobrado!” Dos outros contra o aviso, por vaidade,

Alichino lhe disse: — “Se abalares, Não provarei de pés agilidade, “Hei de, voando, te agarrar nos ares. Vamos do cimo e à riba retiremos:

Maravilha, se a tantos enganares!” Leitor, logração nova contemplemos. Já todos volvem de outro lado a vista: Quem mais avesso assim primeiro vemos.

O Navarro estudara-o como invista; E arrancando, de súbito, ao betume Se arroja e a liberdade então conquista. Da afronta sentem todos o azedume,

Inda mais quem motivo dera ao feito, Gritando: — “Preso estás!” — salta do cume, Porém do medo se avantaja o efeito Ao das asas: um baixa ao fundo presto,

No ar sustém-se o outro, alçando o peito. Assim mergulha o pato na água lesto, Quando avista o falcão: perdida a presa, Se torna o caçador cansado e mesto.

Calcabrina, da raiva na braveza, Após o sócio voa, por ter briga, Se a alma como deseja, vence empresa. Vendo que ao fundo o malfeitor se abriga,

As garras volta contra o companheiro: Furor à luta sobre o lago o instiga. As unhas o outro, gavião ligeiro, Lhe crava e, entrelaçando-se espantosos,

Tombam ambos no pez, de corpo inteiro. Separa o grão fervor os dois raivosos; Em vão, porém, subir-se pretenderam, Que as asas prendem borbulhões viçosos.

Os outros vendo o caso, se doeram: Envia quatro o cabo diligente; E de croques armados acorreram. De um lado e de outro chegam velozmente.

Tendem farpões aos sócios enviscados, Cozidos já naquela crusta ardente, E desta arte os deixamos atalhados.

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