Skip to content
1822–1882

CANTO XXI

José Pedro Xavier Pinheiro

Assim, de ponte em ponte, discursando Do que nesta comédia se não cura, De outro arco acima nos subimos, quando Detemo-nos por ver a cava escura,

Por ouvir de outros prantos vão sonido; Com pasmo olhei a hórrida negrura. No arsenal de Veneza, derretido Como referve o pez na estação fria

Para reparo ao lenho combalido, Incapaz de vogar: qual com mestria Baixel novo constrói; qual alcatroa O que teve em viagens avaria;

Qual pregos bate à popa qual à proa; Qual remos faz, qual linho torce ou parte; Qual mezena e artemão aperfeiçoa: Assim, por fogo não, por divina arte

Betume espesso, ao fundo refervia, As bordas enviscando em toda parte. Mas no pez só na tona eu distinguia Borbulhão, que a fervura levantava,

Que ora inchava, ora rápido abatia. No fundo enquanto os olhos eu fitava, Exclamando Virgílio: — Eia! Cuidado! — Para si donde eu era me tirava.

Voltei-me então como homem, que apressado É por saber o que fugir convenha, De súbito pavor sendo atalhado, Olha sem que por isso se detenha,

E logo atrás de nós eu vi correndo Negro demônio sobre aquela penha. Ah! que aspecto feroz! Ah! quanto horrendo Nos meneios parece e temeroso,

Veloz nos pés e as asas estendendo! No dorso agudo e enorme um criminoso, Escarranchado, em peso, carregava: Dos pés prendia o nervo ao desditoso.

— “Malebranche!” já perto ele bradava — — “Eis um dos anciões de S. Zita! Mergulhai-o, pois torna à gente prava, “Que nessa terra em grande soma habita.

Venais todos lá são menos Bonturo. O no, por ouro, lá se muda em ita“. Ao pez o arroja, e pelo escolho duro Se torna: após ladrão tanto apressado

Não vai mastim, que estava antes seguro: O maldito afundou; surdiu curvado. Sob a ponte os demônios lhe gritaram: — “Não acharás aqui Vulto Sagrado,

“Nem banhos, quais no Serchio se deparam. Se não queres no pez star imergido. A te espetar as fisgas se preparam”. — Com croques cem mordendo esse descrido

— “Bailar” — disseram — “deves bem coberto; Se puderes furtar, furta escondido”. — Tal ordem em cozinha o mestre esperto Aos ajudantes seus que na caldeira

Mergulhem naco à tona descoberto. — “Por que” — falou-me o Guia — “alguém não queira Molestar-te em te vendo, busca abrigo: Num recanto o acharás desta pedreira.

“Não temas que me ofenda o bando imigo; Muito bem sei como o furor lhe afronte; Já venci de outra vez igual perigo”. — Até o extremo então passou da ponte;

Mas, quando a sexta borda já subia, Mister lhe foi mostrar serena fronte. Qual fremente matilha, que se envia Ao pobre, quando pára esbaforido

E pede alívio à fome que o crucia: De baixo arremeteu-lhe o bando infido, Aceso em ira, os croques seus brandindo. Mas gritou-lhes: — “Nenhum seja atrevido!

“Os croques suspendi: até mim vindo Me preste algum de vós atenção toda. Fere, se ousais porém antes me ouvindo”. Clamaram todos: — “Ouça — o Malacoda!”

Enquanto os mais ficavam no seu posto, — “Que queres?” — disse alguém que sai da roda; E o Mestre: — “És, Malacoda, a crer disposto Que as ameaças vossas superasse

Para aqui vir, se por celeste gosto E supremo querer não caminhasse? Deixa-me ir; pois a lei divina ordena. Que eu nesta agra jornada outrem guiasse”.

De Malacoda o orgulho já serena; Aos pés lhe cai o croque; aos ais voltado Lhes disse: — “Este não pode sofrer pena”. E o Mestre me falou: — “Tu, que abrigado

Estás entre os penedos cauteloso, Volve a mim, do temor descativado”. Corri para Virgílio pressuroso. Eis os demônios todos investiram:

Roto o concerto, pois, cria ansioso. De Caprona os soldados, que saíram A partido assim vi que estremeciam, Quando envoltos de imigos se sentiram.

Nos sevos gestos seus se me prendiam Os olhos, e a Virgílio vinculado Os braços o meu corpo todo haviam. Os croques inclinados: — “No costado

Fisguemo-lo” — entre si dois prorromperam. E os outros: — “Oh! pois não! seja espetado!” Ao que o Mestre falava desprouveram Palavra tais, e então bradou depressa:

“Sê quedo, Scarmiglione!” — Emudeceram. Depois assim nos disse: — “Andar por essa Rocha não podereis; jaz destruído Todo arco sexto sem restar-lhe peça.

Se avante quereis ir, seja seguido Desta borda o caminho: não distante Está rochedo ao passo apercebido. “Ontem, cinco horas mais do que este instante

Mil e duzentos com sessenta e seis Anos houve: é então a rocha hiante. “Dos sócios meus na companhia ireis; Vão ver se alguém ao banho quer furtar-se.

Ide em paz: molestados não sereis. “Calcabrina, Alichino vão juntar-se Com Cagnazzo, a decúria comandando Barbariccia! E não podem separar-se

“Droghinaz, Libicocco, deste bando! Graffiacane, o dentudo Ciriatto, Farfarel, Rubicante vão marchando! “Na ronda cada qual se mostre exato!

Sejam a salvo os dois encaminhados Da ponte ao arco até agora intato!” “Que vejo, ó Mestre!” — eu disse — “Acompanhados!” Se sabes ir só, vamos prontamente;

De guias tais dispensam-se os cuidados. “Se tu és, como sóis, Mestre, prudente, Não vês que os dentes seus estão rangendo, Que nos encaram com furor crescente?”

“Não temas” — disse o Mestre, respondendo — “Ranger os dentes deixa-os a seu gosto: É contra os que ardem lá no pez horrendo”. À sestra os dez então fizeram rosto;

Nos dentes cada qual mostra primeiro, Por mofa a língua ao cabo já disposto; E ele trompa fazia do traseiro.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
CANTO XXI · José Pedro Xavier Pinheiro · Poetry Cove