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1822–1882

CANTO XXI

José Pedro Xavier Pinheiro

A sede natural, que não sacia Senão a água, que, súplice, implorava Ao senhor a mulher de Samaria, Molestando-me, os passos me apressava

Após meu Guia na impedida estrada, E do justo castigo o dó me entrava. Eis, como escreve Lucas na sagrada História que Jesus aparecera,

Ressurgido, aos dois sócios na jornada, Uma sombra surgiu; trás nós viera. Andando aquela turba contemplava: Dela fé nem o Mestre, nem eu dera.

— “Deus vos dê paz, irmãos!” — assim falava. Voltamo-nos de súbito, e Virgílio, Cortês no gesto, a saudação tornava Logo dizendo: — “Do feliz concílio

Te receba na paz a santa corte, Que a mim me desterrou no eterno exílio!” — “Como andais” — respondeu — “com passo forte. Se Deus no céu vos não permite a entrada?

Quem vos conduz na altura desta sorte?” — — “Os sinais de que a fronte está marcada Deste homem por um anjo” — diz meu Guia — “To mostram di’no da eternal morada,

“Mas, como aquela, que, incessante fia, Não lhe havia inda a estriga consumido, Que impõe Cloto ao que a vida principia, “Subir só não teria ao céu podido

A sua alma, irmã tua, como é minha, Pois não há, como nós, ver conseguido. “Do inferno às fauces fui tirado asinha Para guiá-lo, e o guiarei contente

No que do meu saber não passe a linha. “Se puderes, me diz, por que o eminente Monte, há pouco, tremeu, e desde a c’roa À base retumbou clamor ingente.” —

A pergunta ao desejo tão bem soa, Que ouvi-la a sede ardente me alivia, Somente uma esperança mitigou-a. — “Quanto hás notado” — a sombra respondia —

“Em nada os ritos da montanha altera: De estranheza motivo não seria. “Mudança aqui supor se não pudera: Subindo ao céu quem pertencer-lhe deve,

A causa dá-se que esse efeito opera. “Nunca saraiva, chuva, orvalho ou neve Nesta montanha cai, passando a altura Dos três degraus que estão na escada breve.

“Aqui não vê-se nuvem clara ou escura, Relâmpago não luz, nem de Taumante Mostra-se a filha, que tão pouco dura. “Jamais daqueles três degraus avante,

Em que de Pedro o sucessor domina, Seco vapor se eleva um só instante. “Tremor talvez a sua base inclina; Mas não atua no alto oculto vento,

Que não sei como dentro se amotina. “Quando já de estar puro o sentimento Uma alma tem e se ala ao céu, que a chama, Segue o tremor e o grito ao movimento.

“Seu querer a pureza lhe proclama, Prova que tem de alçar-se a liberdade Por força do desejo, em que se inflama. “Antes o tem; mas contra essa vontade

A divina justiça ardor lhe inspira Por pena, como o teve por maldade. “Eu que em martírio decorridos vira Anos quinhentos, à melhor morada,

Momentos poucos há, pus livre a mira. “Eis do tremor a causa declarada! Do Senhor eis por que, louvor cantando, Rogou cada alma em breve ser chamada!” —

Calou-se. E como, a tanto mais gozando Está quem bebe, quanto é mor a sede, Indizível prazer tive escutando. — “Vejo” — disse Virgílio — “agora a rede,

Que vos prende e depois dá liberdade, Donde o tremor e o júbilo procede. “Explicar-me te praza ainda, em verdade, Quem tu foste e a razão por que hás jazido

Séc’los tantos em tanta asperidade.” — — “No tempo em que o bom Tito, protegido Por Deus, vingou as chagas que verteram Sangue, por Judas” — replicou — “vendido,

“Na terra o nobre título me deram, Que mais honra perdura, e fui famoso: Inda os lumes da fé me não vieram. “Dos meus cantos o som foi tão donoso,

Que de Tolosa a si me atraiu Roma: C’roas me deu de mirto glorioso. “De Estácio o nome ainda o tempo doma; Tebas cantei e Aquiles esforçado:

Este das forças me exauriu a soma. “Do vivo ardor, que a mente me há tomado, Na flama divinal a causa estava, Que em milhares de engenhos há brilhado.

“Mãe e nutriz a Eneida me alentava; Estro bebi caudal no seio puro; Quanto vali da Eneida derivava. “Para viver no tempo (te asseguro)

Em que existiu Virgílio, mais um ano Passara no, que deixo, exílio duro.” — Estas vozes ouvindo, o Mantuano Olhou-me. — Cal-te! — sem falar dizia;

Mas a vontade está sujeita a engano. Ou no pranto ou no riso se anuncia Tão rápida a paixão, quando se acende, Que o querer nos sinceros prende e lia.

Sorri-me, como que sagaz, compreende. Calou-se o esp’rito; e me encarava atento Nos olhos onde a mente mais se entende. — “Sejas” — disse — “feliz no excelso intento!

Explica-me, porém, por que em teu rosto Lampejar vi sorriso de momento.” — Entre os extremos dois estava eu posto: Um diz — silêncio! — outro a falar me instiga.

Suspiro, e o Mestre atenta em meu desgosto. Responde, que ao silêncio nada obriga, “Fique” — disse — “a verdade bem patente, O que anela saber ele consiga.” —

— “Maravilha causou provavelmente” — Tornei-lhe — “antigo espírito, o meu riso; Maior será me ouvindo, certamente. “Virgílio é quem me guia ao Paraíso:

Para deuses e heróis cantar tiveste Por ele o esforço que lhe foi preciso. “Se outra causa em meu riso supuseste, Te enganaste: o motivo declarado

Nas palavras está que lhe disseste.” — Quer os pés abraçar do Mestre amado, E o Mestre: — “Irmão, que fazes?” — lhe dizia — “Vê que és sombra e de sombra estás ao lado!”

Erguendo-se ele: — “Tanto me extasia O amor” — disse — “em que por ti me acendo, Que da nossa vaidade me esquecia, Tratar sombras, quais corpos, pretendendo.” —

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