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1822–1882

CANTO XVIII

José Pedro Xavier Pinheiro

Palavras tais já proferido havia O Vate excelso e, atento, me observava Por ver se eu satisfeito parecia; E eu, em maior sede me inflamava,

Calando-me, entre mim dizia: “O excesso, Que nas perguntas há, talvez o agrava.” — Mas o sincero pai, sempre indefeso, Meu silêncio notando e o que o motiva

Logo animou-me a lho fazer expresso. — “Minha vista” — falei — “tanto se aviva À luz do verbo teu, Mestre, que ao claro Vejo o que da razão tua deriva.

— “Rogo-te, pois, ó pai beni’no e caro, Me ensines esse amor, de que descende Todo o mal, todo o bem ao mundo ignaro.” — — “Volve a mim” — disse — “a luz, que mais se acende

No espírito e há de ser-te bem patente Quanto erra o cego que guiar pretende. “Alma criada para amar ardente, A tudo corre, que lhe dá contento,

Se despertada do prazer se sente. “Do que é real o vosso entendimento Colhe imagens que em modo tal desprega, Que alma pra elas sente atraimento.

“Se alma, enlevada, ao seu pendor se entrega, Esse efeito é amor, própria natura, Em que o prazer novo liame emprega. “E, como o fogo se ala para a altura

Por sua forma, que a elevar-se tende Ao foco, onde o elemento seu mais dura, Assim pelo desejo a alma se acende, Ação esp’ritual que não se aquieta,

Se não consegue a posse, que pretende. “Vê, pois, que da verdade excede a meta Quem acredita e aos outros assevera Que todo o amor de si é cousa reta.

“Em gênero talvez se considera O amor sempre bom; mas todo selo É bom, inda que seja boa a cera? — “Se, te ouvindo” — tornei — “com mor desvelo

Do que ser pode o amor fico inteirado, Dúvidas hei, que esclarecer anelo. “Pois que amor é de fora derivado, Pois que a alma de outra sorte não procede,

No bem, no mal o mérito é frustrado.” — — “Dizer-te posso o que a razão concede” — Tornou — “do mais a Beatriz somente, Por ser ato de fé, solução pede.

“Forma substancial, não dependente Da matéria, porém com ela unida, Specífica virtude tem latente. “Só, quando atua, pode ser sentida;

Denúncia do que seja dá no efeito, Como em planta a verdura indica a vida. “Das primeiras noções onde o conceito Nasceu? Donde apetites vêm primeiros,

A que o homem no mundo está sujeito? “Como o instinto do mel na abelha, inteiros Em vós estão, louvor não merecendo, Nem censura também, ínscios obreiros.

“Tudo desses pendores dependendo, Inata a faculdade é que aconselha, A porta do consenso em guarda tendo. “Em tal princípio a causa se aparelha,

De que procede em vós merecimento: Repele o mau amor, no bom se espelha. “Os sábios, estudando o fundamento Das cousas, vendo inata a liberdade,

Da moral vos tem dado o ensinamento. “E, supondo que por necessidade Nascesse todo o amor, que vos incende, Tendes para contê-lo potestade.

“Nobre virtude ser Beatriz entende O livre arbítrio; e, quando lhe falares, A isto mesma a memória atento prende.” — Como alcanzia a flamejar nos ares,

A lua à meia-noite, já tardia, Escurecia os outros luminares; E, contra o céu, caminho percorria, Por onde o sol vai pôr-se, quando a Roma,

Entre Sardenha e Córsega, alumia. Havia a sombra ilustre, por quem toma A fama Ande à cidade mantuana, Do peso meu aliviado a soma:

Quando eu, que explicação lúcida e plana Sobre as minhas questões tinha alcançado, Sinto que a mente sonolência empana. Desse quebranto súbito arrancado

Por turba fui, que, após se encaminhando, A nós vinha com passo acelerado. E como o Ismeno e Asopo, outrora, em bando, Correr viam Tebanos ofegantes,

Por noite Baco em alta voz cantando, A multidão, assim, dos caminhantes, De bom querer e justo amor tocados Pelo círc’lo apressavam-se anelantes.

E, pois, tinham-se em breve apropinquado; Na carreira chorando afadigosa, Assim gritavam dois mais avançados: — “Maria corre ao monte pressurosa;

César rende Marselha, e contra Ilerda Rápido voa à Espanha revoltosa. — — “Pressa; pressa! De tempo já sem perda! Pouco zelo não haja!” — outros clamaram —

“Não refloresce a Graça nalma lerda!” — — “Vós, em que tais fervores se deparam, Que talvez negligência ides remindo Dos tempos, que no bem não se empregaram,

“Dizei a um vivo (estais verdade ouvindo), Que partir-se pretende à nova aurora. Se é perto a entrada, donde vá subindo.” A voz do Mestre meu desta arte exora.

Dos espíritos um lhe respondia: — “Vem conosco: não longe ela demora. “Anelo de ir avante nos desvia De detença: perdoa, por bondade,

Se há, cumprindo um dever, descortesia. “De S. Zeno em Verona fui abade De Barba-roxa, o bom, sob o reinado De quem Milão se lembra sem saudade.

“Alguém que à sepultura está curvado Há de em breve chorar esse mosteiro E o poder, com que o tinha dominado; “Pois, em dano ao pastor seu verdadeiro,

Ao filho mal nascido, o cometera, No corpo horrendo, na maldade useiro.” Não sei se inda falou, se emudecera, De nós já velozmente se alongara,

Mas ouvi-lo e notá-lo me aprazara. Então disse-me quem me guia e ampara: — “Volve-te, atenta nestes dois: correndo Nos lentos mordem com censura amara.” —

— “Avante!” — os dois no couce vêm dizendo — Os que se abrir o mar viram, morreram, A herança do Jordão não recebendo, “E os que o filho de Anquises não quiseram

Seguir até seu fim na árdua jornada Fama e glória por gosto seu perderam.” — Depois, daquela grei stando afastada Tanto, que eu divisá-la não podia,

De nova idéia a mente foi tomada, Outras surgindo após de romaria; E tanto de uma em outra vagueava. Que pouco a pouco o sono me invadia,

E o pensamento em sonho se mudava.

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